quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ORÇAMENTO DE ESTADO 2010



INTERVENÇÃO DE ENCERRAMENTO DO DEBATE NA GENERALIDADE DO OE 2010, FEITA PELO DEPUTADO JOSÉ LUÍS FERREIRA DO GRUPO PARLAMENTAR "OS VERDES" HOJE NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA


No encerramento do debate na generalidade do Orçamento de Estado para 2010, a primeira referência que cabe aqui fazer, tem a ver com o caminho que o Governo escolheu para assegurar a aprovação deste orçamento.

Tem a ver com a opção política do governo, na escolha dos parceiros, porque a opção quanto ao conteúdo do orçamento e às politicas que dai decorrem, estavam já, mais que definidas.

Muito provavelmente foram apenas necessários alguns pequenos ajustes.

O Governo que começou por conversar com quase todos os Grupos Parlamentares da oposição, depressa deixou pelo caminho os Partidos à sua esquerda.

Para negociar com a esquerda teria de mudar a politica, confessou ontem o Sr. Primeiro Ministro. E isso era muito aborrecido, acrescentamos nós.

Assim, foi mais fácil. O orçamento também agrada á direita e portanto as coisas estão, desta forma, facilitadas.

E não é só o Partido Socialista e a direita que ficam satisfeitos com este Orçamento.

Também os Bancos e os grandes grupos económicos encontram motivos para satisfação, porque têm assim a garantia de continuarem na cavalgada dos fabulosos lucros que, mesmo em tempos de crise, têm vindo a apresentar.

Só nos primeiros 9 meses de 2009, os 5 maiores bancos acumularam lucros superiores a 1,6 milhões de euros.

E a insensibilidade social, ou a imoralidade, que tem vindo a reinar, vai, pelos vistos, prolongar-se no tempo, já que este orçamento ao mesmo tempo que garante a estabilidade dos lucros para o sector financeiro, impõe a redução dos salários, menos emprego e menos apoios sociais, para a generalidade das pessoas.

Trata-se de um Orçamento que assume a continuidade de uma política vazia e oca, no que diz respeito a uma estratégia de desenvolvimento.

Que se mostra incapaz de combater o maior problema com que nos deparamos actualmente, o desemprego, e que atinge mais de 700 mil cidadãos.

E sobre este problema grave, o Governo, dá um mau exemplo, e um exemplo de mau gosto.

Em jeito de uma espécie de politica franciscana, do “olha para o que eu digo e não olhes para o que eu faço”, o Governo retoma a formula na Administração Pública, do saiem dois e entra um.

Um orçamento que impõe o congelamento dos salários aos funcionários públicos mais mal pagos da Europa.

Provocando uma diminuição real dos salários, daqueles que perderam nos seus escalões mais baixos, em média, cerca de 4% do poder de compra real, nos últimos 10 anos.

Que ao invés de apostar mais na acção social escolar, procura desresponsabilizar o estado das suas funções, como se constata com a criação do sistema de garantias de empréstimo bancário aos estudantes.

Que não procura combater de forma eficaz a fuga e a evasão fiscal.

Que teima em não proceder á tributação generalizada das mais-valias e insiste na concessão de benefícios fiscais ilegítimos.

Que se basta com a parca tributação efectiva do sector financeiro e dos seus muitos milhões de euros de lucros.

Ao mesmo tempo que permite o alastrar dos níveis de pobreza e a persistência de um dos maiores níveis de desigualdade social e de distribuição de riqueza da União Europeia.

Um orçamento que encolhe o investimento público.

E que através do aumento da cativação, transforma o investimento real disponível para 2010, inferior em cerca de 100 milhões de euros, relativamente ao investimento de 2009.

É mais que visível, a quebra generalizada do PIDDAC, muito perto dos 25% quando comparado com o montante executado no ano passado, caindo assim para o nível mais baixo dos últimos oito anos.

E ao mesmo tempo que o PIDDAC emagrece, as parcerias publico-privadas, engordam.

Na saúde crescem 60%, na ferrovia crescem mais de metade e na rodovia aproxima-se da duplicação.

Como consequência temos o acentuar da desorçamentação e a respectiva dificuldade de fiscalização por parte desta Assembleia, relativamente aos contratos que o Estado vai assinando com os privados, questão que, aliás, tem sido levantada pelo Tribunal de Contas.

Mas mesmo magro o PIDDAC poderia contribuir para combater as assimetrias regionais. Mas nem isso.

Os distritos do interior assistem a uma substancial redução, fomentando ainda mais a desertificação do interior.

Relativamente ao ambiente, confirma-se que o governo continua a ver nesta área o parente pobre em termos orçamentais. As verbas continuam a cair.

De 2009 para 2010,o total consolidado passa de 581,2 milhões de euros para 330,4 milhões.

E nem o facto de estarmos no ano internacional da biodiversidade teve algum peso ou relevância na ponderação do Governo.

As verbas destinadas á Conservação da Natureza continuam a cair de forma abismal. Só de 2009 para 2010, caiem cerca de 5%.

O ICNB tem hoje uma verba que corresponde a metade da verba que tinha hà 7 anos atrás.

Cortes sucessivos, que nos dão a clara dimensão da importância que as áreas protegidas e a conservação da natureza revestem para o Governo.

Quanto á agricultura, tendo-se verificado atrasos substancias na definição e aplicação do PRODER, nos últimos três anos, seria de esperar que este ano se procurasse recuperar o atraso desse período, nomeadamente no que toca aos investimentos nas exportações.

Mas não, com uma dotação de apenas 600 milhões de euros para o PRODER, o que iremos ter é um potencial desperdício de verbas comunitárias destinadas á Agricultura Portuguesa.

Assistimos assim a uma total incapacidade do Governo para inverter a situação vivida na nossa agricultura, que devia ser encarada como um sector estratégico e que através da sua modernização poderia fomentar o desenvolvimento rural, criar e manter de forma sustentada, postos de trabalho e caminhar para a nossa soberania alimentar.

Estamos portanto, na nossa perspectiva, perante um mau orçamento.

Um mau orçamento porque vai contribuir para agravar o custo de vida e o aumento das desigualdades sociais

Um mau orçamento porque vai acentuar as assimetrias regionais e obrigar as autarquias a adiar projectos necessários e indispensáveis ao desenvolvimento local e ao bem-estar das populações.

Um orçamento, baseado, como outros o foram no passado, em previsões de receitas fiscais, de crescimento e de inflação de duvidosa sustentabilidade, e cuja única certeza é aquela que os trabalhadores conhecem desde há anos: a contenção salarial.

Por fim, dizer que os contornos que envolveram a elaboração deste orçamento de Estado, foram tão nebulosos que chegamos a esta fase, sem saber, se este é o orçamento do Bloco Central, alargado ao CDS/PP, ou se é o orçamento da AD, alargado ao Partido Socialista.

Seja como for, resta-nos a certeza de estarmos perante um orçamento de continuidade com as politicas do passado e cujos resultados, infelizmente, todos conhecemos.

E porque se conhecem os resultados dessas politicas, “Os Verdes” vão votar contra.

"Os Verdes" denunciam prejuízos para os municípios açorianos

No Debate sobre o Orçamento de Estado para 2010, "Os Verdes" denunciaram o incumprimento da Lei das Finanças Locais, nomeadamente na transferência de verbas para os municípios. Esta situação vem a agravar a injustiça na distribuição de recursos públicos, com graves prejuízos para os municípios dos Açores e Madeira.

O governo recusa-se a transferir para os municípios dos Açores e Madeira a parcela referente ao IRS desde março de 2009, num montante que ronda os 13.000.000 €. Na proposta de Orçamento de Estado para 2010, os valores para esses municípios desaparecem.


Intervenção do Deputado José Luís Ferreira
http://www.youtube.com/user/peverdes#p/a/u/0/ZYh9G0GVYCM









Ver também:

Intervenção da Deputada Heloísa Apolónia
http://www.youtube.com/user/peverdes#p/a/u/1/qrG6FVvwlzs

Impedir o acesso das crianças às touradas

Horta, 10 Fev (Lusa) - O PCP/Açores quer impedir o acesso de menores de 16 anos às touradas de praça, pelo que vai apresentar uma proposta de alteração ao Regulamento dos Espectáculos Tauromáquicos, anunciou hoje o líder dos comunistas açorianos, Aníbal Pires.

Para os comunistas, trata-se "proteger as crianças e os jovens de um espectáculo que é, pela sua natureza, sangrento".

Aníbal Pires, que falava numa conferência de imprensa na Horta, Faial, salientou, no entanto, que a proposta de alteração não abrange as touradas à corda, nem as largadas tradicionais, que são comuns em algumas ilhas dos Açores, especialmente na Terceira.

“Uma coisa são os divertimentos tradicionais que envolvem as nossas comunidades, outra coisa diferente são as touradas de praça, que são um espectáculo violento, com derramamento de sangue, do qual temos o dever de proteger as nossas crianças”, afirmou Aníbal Pires.

O líder e deputado regional do PCP/Açores salientou que não negociou com nenhum partido, nem com a maioria socialista, a eventual aprovação desta proposta na Assembleia Legislativa Regional, admitindo que a questão possa gerar "alguma polémica”.

RF/APE.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A arte da tortura

Foi apresentada na Assembleia Regional uma proposta de decreto legislativo que pretende dar um novo regulamento às corridas de touros. Os proponentes, com toda a legitimidade, podiam ter chamado à sua proposta “regulamento da tortura animal”, ou “das touradas sangrentas”, ou “do sadismo bárbaro com touros”… Mas não. Acabaram por chamá-lo “Regulamento geral dos espectáculos tauromáquicos de natureza artística”. Sim, natureza artística. Não é engano.

De forma bastante inteligente, os proponentes perceberam que sempre fica melhor falar de arte que falar de tortura, de sangue ou de sadismo. É que a tortura e a violência gratuita para diversão popular já não são tão bem aceites pela sociedade do século XXI como eram dantes. Desta forma, mudando os nomes e tentando fazer passar uma coisa por outra, os proponentes (a partir do governo regional) demostraram bem claramente que tinham qualquer coisa de que envergonhar-se.

O texto desta proposta de regulamento (ler texto completo) surpreende pela sua minúcia. Determina com exactidão quantos minutos o touro pode ser burlado, espetado, encurralado, o número de vacas necessário para recolher o touro, se o touro deve ser ou não cego, se deve sofrer ou não de criptorquidia, o comprimento certo das bandarilhas (com 8 cm para espetar no animal)… Com o seu refinado sadismo, esta proposta de regulamento lembra muito aqueles manuais de tortura utilizados pelo antigo Tribunal da Santa Inquisição.

A proposta de regulamento também põe ao lume alguns novos tachos. Pretende criar uma “Comissão Regional de Tauromaquia”, de 15 membros, composta por “artistas” (mais uma vez o arte para disfarçar), ganadeiros, empresários, tertulianos… que se reuniria no menos uma vez por ano, com gastos de deslocação e alojamento pagos. Seria também criado um “Corpo de delegados técnicos tauromáquicos”, composto por “artistas tauromáquicos” e “aficionados meritórios”, que depois poderiam actuar como médicos veterinários (!) nas corridas. Os delegados nomeados para uma corrida ficariam com uma remuneração de mais de 200 euros, para além de transporte, alojamento e ajudas de custo.

Claro que esta proposta também tem os seus momentos divertidos, como a necessária obrigação de “abrilhantar” o espectáculo com uma banda musical, tocando em momentos bem específicos, para além do cornetim. Para grande alegria dos touros, as corridas não poderiam realizar-se durante os dias de eleições e de luto nacional ou regional. E surpreende ainda, pelo seu carácter laico e republicano, a referência a espaços religiosos e a um capelão nas praças de touros.

A volta desta proposta têm-se colocado algumas questões preocupantes.

Primeiro, fala-se nela de “picadores” e de “matadores de toiros”. E também de que a categoria de “matador” só pode obter-se participando em “corridas de touros de morte”. Todo isto contradiz abertamente o assinalado nas leis e ainda a recente decisão da Assembleia Regional de não introduzir as touradas picadas. Parece haver nisto um futuro desejo dos proponentes de alargar a novos patamares as torturas aplicadas aos touros.

Outra questão repetidamente levantada é a necessidade de fazer agora esta proposta de regulamento, quando já há um regulamento a nível nacional. Nisto parece ter grande importância o interesse dos ganadeiros, já que a proposta transfere para o licenciamento municipal alguns espectáculos, permite a lide de touros de menor peso e facilita que as lides possam ocorrer em diferentes ilhas. Segundo o Director Regional de Cultura (sim, cultura!) esta proposta de regulamento cria as “condições para um espectro maior de participação dos ganaderos regionais para fornecimento de reses para serem lidadas em espectáculos taurinos”.

Esta proposta é mais um sintoma da situação cada vez mais agonizante em que se encontra este sector económico, só mantido artificialmente pelos fundos públicos e pela grande generosidade dos governantes regionais e camarários.

Não é, de certeza, com a aprovação deste tipo de regulamentos ridículos que o sector tauromáquico vai sobreviver. As touradas estão a desaparecer progressivamente em todo o mundo devido a um processo de avanço civilizacional. Para o mundo das touradas impõe-se forçosamente a reconversão. Mas, em vez disso, o sector parece querer fugir para diante e apresenta todo tipo de propostas absurdas, teimosas e de carácter ainda mais sanguinário que nos envergonham a todos. A lógica frustração destas pessoas parece estar a consumir da pior maneira o seu sentido da realidade.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Saúde e listas de espera

Intervenção do Deputado José Luís Ferreira no debate sobre saúde e listas de espera (04/02/2010):

No primeiro semestre de 2009 existiam 170 mil utentes em listas de espera para cirurgia e, em muitos casos, os utentes chegam a esperar mais de um ano pela sua vez. Relativamente às consultas, estão em lista de espera 475 mil utentes, não se conseguindo cumprir o que, sobre a matéria, está legalmente estabelecido.

São estes os tristes números que resultam da leitura do Relatório de Actividade Cirúrgica Programada, produzido pelo Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para cirurgia e referente ao primeiro semestre de 2009.

Perante este cenário, e como se não fosse suficiente, o Programa de Combate às Listas de Espera Cirúrgicas encontra-se aparentemente suspenso, o que significa que um número indeterminado de operações não está a ser realizado em muitos hospitais.
É verdade que não estão suspensas as cirurgias que possam eventualmente colocar em risco a vida do doente, mas é evidente que as listas de espera vão aumentar porque, pelo menos enquanto o Programa se mantiver suspenso, vão entrar mais doentes nas listas de espera do que aqueles que saem, o que vem, naturalmente, agravar ainda mais a situação.

Acresce ainda que, apesar das unidades de saúde estarem legalmente obrigadas a publicar os tempos de espera, muitas não estão a proceder a essa divulgação, pelo menos de forma plena.

Para além disso, as Unidades de Saúde, tantos as públicas como as privadas, convencionadas com o Serviço Nacional de Saúde, podem, nos termos da Lei, ser sancionadas, no caso de desrespeitarem as regras sobre os tempos máximos de resposta garantida e acesso aos cuidados de saúde.

Ora, é público e notório que os Hospitais não estão a cumprir os prazos de atendimento previstos. Há Unidades em todo país que ultrapassam largamente os prazos estabelecidos na Lei e doentes que chegam a esperar um ano para uma consulta de urologia, por exemplo.

No entanto, e apesar desta evidência, não há conhecimento de alguma sanção que tenha sido aplicada pelo facto de se ter desrespeitado o que está legalmente estabelecido relativamente aos Tempos Máximos de Resposta Garantida e acesso aos cuidados de Saúde.

Nem tão pouco, se a Entidade Reguladora da Saúde tem feito averiguações junto das Unidades de Saúde, no sentido de aferir o cumprimento da lei, no que diz respeito a esta matéria.

Por outro lado, a gestão privada, designadamente através das parcerias público-privada, e que o governo está a alargar a vários novos hospitais, e a outros, como é o caso do Hospital do Litoral Alentejano, não serve, na nossa perspectiva, o Serviço Nacional de Saúde e o interesse público.

Aliás, os únicos interesses que ficam assegurados com esta opção são os interesses dos privados envolvidos no negócio e cujos lucros foram recentemente divulgados.

Mas é bom não esquecer que do outro lado estão os cidadãos, os utentes, as famílias. Segundo um estudo da DECO, 6 em cada 10 famílias, sentiram dificuldades em seguir tratamentos médicos devido a problemas financeiros durante o ano de 2009. O mesmo estudo indica que quase metade dos agregados familiares inquiridos se viu obrigado a adiar uma terapia, uma boa fatia interrompeu-a e outra boa parte nem ponderou iniciá-la, apenas e tão só porque não tinha dinheiro para suportar os custos que a terapia acarretava.

Ou seja, muitas famílias portuguesas adiam, muitas famílias portuguesas interrompem e muitas famílias portuguesas nem sequer chegam a considerar a possibilidade de fazer uma terapia, porque não têm dinheiro para a pagar. E muitas famílias portuguesas acabam por se endividar, como forma de recorrer a serviços de saúde privados, quase todos eles também existentes no Serviço Nacional de Saúde.

Existentes, mas não disponíveis para quando é preciso, porque as longas Listas de Espera acabam por impor uma solução pelo privado.

Ou seja, as Listas de Espera acabam por ser também um mecanismo que potencia, as desigualdades no acesso á Saúde e potenciam ou fomentam essas desigualdades de forma preocupante.

Seria pois oportuno que o Governo procedesse a uma avaliação da experiência que a distância do tempo já vai permitindo e questionasse a opção pela gestão privada, designadamente através das parcerias público-privada, no sentido de aferir se esta opção tem disponibilizado um melhor acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde.

Ou seja, se do ponto de vista do cidadão, do utente, porque já sabemos que para os privados que estão no negócio, é muito melhor assim, mas para os utentes, será que estão melhor servidos?

É que não é isso que a experiência permite constatar, pelo contrário na generalidade dos casos, essa opção levou ao agravamento da qualidade dos serviços prestados, apesar dessa opção, como então se anunciava, se inserir numa política de modernização e revitalização do Serviço Nacional de Saúde, orientada para a satisfação das necessidades do utente. "Estas Unidades vão disponibilizar um melhor acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde" lia-se no anúncio, em jeito de publicidade enganosa. Mas, pelos vistos, este anúncio não dispensa a consulta do prospecto. E, de facto, a experiência mostrou que não.

Relativamente à proposta que o CDS/PP aqui nos trás hoje, pode ser uma solução para diminuir as listas de espera para as cirurgias mas não resolve o problema de fundo e o problema de fundo reside exactamente na necessidade do Estado encarar a Saúde como um serviço público da sua responsabilidade e não continuar esta onda de desresponsabilização numa área com a importância que a Saúde representa para os cidadãos.

Para se avançar para esta solução seria suposto, nos termos da lei, que se esgotassem as capacidades do S.NS., o que não está, de todo, claro.

Não vamos, de qualquer forma, inviabilizar o Projecto de Resolução que hoje discutimos, porque as pessoas que estão em lista de espera não têm culpa da situação criada pelo Governo.

Contacto Verde nº 79

Último Boletim informativo quinzenal do Partido Ecologista "Os Verdes":

CONTACTO VERDE nº 79 (01/02/2010)

Nesta edição da Contacto Verde, o destaque vai para o debate no Parlamento sobre o diploma apresentado por “Os Verdes” que requeria a suspensão do Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico.

Em entrevista, o deputado José Luís Ferreira aborda a polémica expansão do terminal de contentores de Alcântara e a acção de “Os Verdes” no âmbito desta importante questão da a gestão da zona ribeirinha.

No In Loco, Sónia Colaço escreve sobre a tertúlia “Com Os Verdes pela Igualdade PLENA” onde se abordou a temática do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Suspensão da reciclagem de plásticos mistos?

“Os Verdes” questionam governo sobre reciclagem de plásticos mistos.

O Deputado José Luís Ferreira, do Grupo Parlamentar “Os Verdes”, entregou na Assembleia da República duas perguntas em que pede esclarecimentos ao Governo, através do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e Ministério e do Ministério da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento, sobre a reciclagem e valorização de embalagens e resíduos de embalagens, nomeadamente os chamados “plásticos mistos”.

*****

No contexto da reciclagem e valorização de embalagens e resíduos de embalagens, a nível nacional, foi assumido o compromisso de cumprir as metas fixadas na Directiva 94/62/CE, de 20 de Dezembro, alterada pela Directiva 2004/12/CE, de 11 de Fevereiro.

Contudo, têm sido referidas dificuldades ao nível da sustentabilidade das actividades de recolha e reciclagem, com o risco de se comprometer o encaminhamento de certos resíduos para reciclagem, como é o caso dos chamados “plásticos mistos”, conforme alertou a Associação de Recicladores de Plástico.

Efectivamente, a Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Ponto Verde, anunciou à comunicação social em Setembro de 2009 que, para evitar a falência da sociedade, em Outubro de 2009, procederia ao abandono da retoma e envio para reciclagem de plásticos mistos, como embalagens de manteiga, pacotes de batata frita ou copos de iogurtes.

A associação ambientalista Quercus considera que a suspensão da reciclagem de plásticos mistos, que constituem cerca de 15 por cento dos plásticos já separados pelos portugueses, vai comprometer seriamente o cumprimento das metas.

Neste contexto, segundo a Associação de Recicladores de Plástico (ARP), para que as taxas de reciclagem sejam alcançáveis e sustentáveis, Portugal não pode ficar dependente da pura e simples exportação de resíduos. Tem que contar com capacidade de reciclagem própria. Aliás o recurso à exportação, tem comprometido o fornecimento de matéria-prima para a plena laboração das empresas recicladoras.

A ARP defende também que, no quadro deste sector, é necessário fomentar mercados finais para os produtos reciclados.

Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, solicito a S. Exª O Presidente da Assembleia da República que remeta ao Governo a seguinte Pergunta, para que o Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território me possa prestar os seguintes esclarecimentos:

1. Que medidas prevê o Ministério do Ambiente tomar, para fazer face à situação nacional da reciclagem de plásticos mistos?
2. Como justifica o Ministério o recurso à exportação de resíduos de plástico, comprometendo a laboração plena das empresas recicladoras nacionais, por falta de matéria-prima?
3. Que medidas prevê o Ministério tomar para fomentar os mercados finais para os produtos reciclados?

Ao Ministério da Economia foram dirigidas as seguintes questões:

1. Como justifica o Ministério da Economia o recurso à exportação de resíduos de plástico, comprometendo a laboração plena das empresas recicladoras nacionais, por falta de matéria-prima?
2. Que medidas prevê o Ministério tomar para fomentar os mercados finais para os produtos reciclados?


Comunicado de imprensa de "Os Verdes".
30-01-2010.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Crescimento negativo da paz

Começou a partida dum novo contingente de 150 militares portugueses para o Afeganistão, o que elevará a presença militar portuguesa a mais de 250 homens. Estes militares vão funcionar como Força de Reacção Rápida, ao serviço do Comando da “International Security Assistance Force”. Não terão restrições no uso da força, podendo disparar em qualquer ocasião sem esperarem pelo habitual consentimento vindo das hierarquias nacionais (Público 25-01-10).

Não há dúvida de que no Afeganistão decorre uma batalha civilizacional. Luta-se contra o extremismo religioso, contra o terrorismo, contra a tortura, contra a pena de morte, contra o genocídio, contra a destruição do património cultural, contra a ameaça nuclear, contra a barbárie...

Com isto estamos a falar, evidentemente, dos Estados Unidos e dos seus aliados da NATO. Todos conhecemos, por exemplo, o fanatismo religioso omnipresente em todas as cerimónias oficiais norte-americanas. Ou a forma como a ciência, concretamente a evolução biológica (ou teoria da evolução), é marginalizada no ensino desse país. Conhecemos também o frequente apoio e participação do governo norte-americano em actos terroristas no estrangeiro. Sabemos da prática legal da tortura em Guantánamo ou nas cadeias iraquianas. E também que a pena de morte é legal mesmo dentro das próprias fronteiras dos Estados Unidos. Sabemos igualmente do apoio incondicional do governo norte-americano ao genocídio sistemático do povo palestiniano. Lembramo-nos de todo o património cultural da humanidade destruído durante o bombardeamento de Iraque. Lembramo-nos também do terrível e desproporcionado arsenal nuclear na posse dos norte-americanos e da NATO… Mas curiosamente há quem não goste, nem queira, lembrar-se de todo isto.

Mas também sabemos que, no Afeganistão, o bando contrário não é muito melhor. Se calhar é por isso que os combatentes afegãos eram, até há poucos anos, valiosos aliados da NATO.

Afinal, onde está portanto a batalha civilizacional? A vitória dum dos bandos vai trazer a liberdade aos poucos afegãos sobreviventes desta absurda guerra colonial? Faz sentido que o presidente norte-americano, recente prémio Nobel da Paz, envie agora mais 30.000 soldados para o Afeganistão, isto é, novas hordas assassinas em combate (as própias autoridades norte-americanas reconhecem um alto número de vítimas civis nos seus ataques)? E faz sentido que os governos europeus apoiem esta escalada na violência enviando, também, as suas próprias hordas?

Sem dúvida, nesta guerra não haverá vencedores. Mas há e haverá vítimas: um povo afegão que parece não interessar à comunidade internacional, e ainda muito menos às tropas enviadas a esse país. Ignorantes da realidade do Afeganistão, estas tropas parecem utilizar uma técnica infalível para identificar os inimigos: se depois de lançar uma bomba o afegão morre, fica provado que era um perigoso talibã; se sobrevive, é porque era inocente, mas mesmo assim suspeito.

O presidente norte-americano considera que esta sangrenta ofensiva da NATO no Afeganistão é uma “guerra justa” motivada pelo ataque sofrido há já bastantes anos em Nova Iorque (afinal, supostamente realizado por um antigo aliado saudita).

O certo é que estas declarações colocam a Portugal num grave perigo. E tudo devido ao cão de água de raça portuguesa do presidente norte-americano. Que acontecerá se este cão comete um atentado? Que acontecerá, por exemplo, se o cão morder o presidente? Será que os norte-americanos e a NATO iniciarão uma nova “guerra justa”, invadindo e bombardeando Portugal?

Ou afinal estas declarações do presidente eram só uma simples desculpa, uma desculpa qualquer, para favorecer a poderosa, bárbara e impiedosa indústria militar norte-americana no seu grande negócio a decorrer no Afeganistão?

Golfe em Santa Maria: miragem num futuro deserto?

O deputado regional Aníbal Pires alerta para miragens turísticas na ilha de Santa Maria (ver texto completo):


"Entre as principais questões abordadas nestes encontros, destaca-se a questão do Campo de Golfe de Santa Maria. Apesar das abundantes e confusas promessas do Governo Regional e da Sociedade Ilhas de Valor, este equipamento, com os seus elevados consumos de água e com a inevitável impermeabilização de uma extensa área agrícola, abrangendo algumas das zonas mais férteis da ilha de Santa Maria, o que compromete a sua capacidade produtiva e a sua segurança alimentar, dificilmente será sustentável do ponto de vista ambiental.

É também de questionar a oportunidade do investimento. Numa época de crise, em que assistimos ao decréscimo contínuo dos fluxos turísticos e, mesmo, ao encerramento de unidades hoteleiras, não se entende como é que será possível rentabilizar este empreendimento, sendo de esperar que se trate, inevitavelmente, de mais um “elefante branco” pago, e bem pago, com os dinheiros da Região. Nesse sentido, o PCP Açores reafirma a sua oposição à construção do Campo de Golfe de Santa Maria."

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Suspensão das barragens inviabilizada.

PS, PSD e CDS unidos em defesa dos grandes interesses económicos chumbam iniciativa de “Os Verdes” que visava suspensão das barragens.

Os votos contra do PS, PSD e CDS que levaram ao chumbo do Projecto de Resolução do PEV que visava a suspensão do Programa Nacional de Barragens é, para “Os Verdes”, a prova e demonstração clara de que a união entre estes 3 defensores dos grandes interesses económicos não se faz só no Orçamento de Estado mas também em todas as matérias que possam ameaçar os interesses económicos de certos sectores, neste caso concreto, os interesses das grandes empresas hidroeléctricas.

Fica ainda claro que estes partidos sobrepõem esses interesses a qualquer outro interesse nacional ou regional, nomeadamente aos interesses das populações e do desenvolvimento e também aos imperativos de ordem ambiental.

Para o PEV, o PS ao chumbar este Projecto perdeu uma grande oportunidade de demonstrar que o desenvolvimento pode ser compatível com a seriedade técnica e científica e com o ambiente e que há matéria que o Governo tem considerado de relevante interesse nacional deve ser devidamente ponderada pela sociedade portugues, nomeadamente pela Assembleia da Republica.

Tal como a Deputada Heloísa Apolónia relembrou no debate desta iniciativa, o PNB só tem vindo à AR por iniciativa do PEV e nunca por iniciativa governamental. Por outro lado, esta foi também uma perda de oportunidade para repensar uma proposta que foi alvo de inúmeras críticas, não só em Portugal, como também da própria Comissão Europeia.

Tal como a Deputada Heloísa Apolónia relembrou, a avaliação estratégica não foi cumprida e os impactos gravíssimos e irreversíveis deste projecto e dos respectivos empreendimentos, tanto a nível económico e social, como a nível ambiental, continuarão por avaliar.

“Os Verdes” consideram ainda da maior hipocrisia as críticas e “preocupações” expressas pelo PS, PSD e CDS ao Programa Nacional de Barragens durante o debate na Assembleia da República, quando posteriormente, no momento da votação, onde poderiam passar do discurso à acção, anulam essa oposição com o seu voto contra, inviabilizando a suspensão do Programa. As críticas expressas têm um único objectivo: conter o descontentamento de alguns dos seus eleitores e autarcas que, nas zonas de implementação dos projectos, nomeadamente no Tua e no Fridão, se confrontam com os problemas concretos decorrentes dos mesmos.

O chumbo deste projecto não impedirá “Os Verdes” de continuarem, por todos os meios legítimos que estiverem ao seu alcance, a lutar em defesa dos direitos das populações, do nosso património natural e ambiental e por uma política energética que não se incompatibilize com o ambiente. E desde já, “Os Verdes” aguardam pela resposta ao requerimento que apresentaram logo após a vinda da Ministra do Ambiente, a 28 de Dezembro do ano passado, a solicitar a resposta dada pelo governo português à Comissão Europeia, relativa às críticas feitas por esta ao PNB.

“Os Verdes” aguardam também a vinda do Ministro das Obras Públicas à comissão parlamentar para responder sobre a questão da Linha do Tua e também da Ministra do Ambiente à respectiva comissão para responder sobre o PNB, vinda que foi requerida pelo PEV e não pelo PSD, tal como este partido afirmou em plenário da Assembleia da República.

Comunicado de imprensa de "Os Verdes".
29-01-2010.


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O fantasma da incineração

A Associação de Municípios da Ilha de S. Miguel (AMISM) volta mais uma vez com a ideia de construir uma super-incineradora para tratar os resíduos sólidos urbanos da ilha.

Como sistema de gestão de resíduos, a incineração já não é aceite praticamente por ninguém. É um sistema altamente contaminante, que lança para o ar uma grande quantidade de produtos químicos, como dioxinas e metais pesados, com comprovados e terríveis efeitos para a saúde. E ainda lança também os já conhecidos gases de efeito estufa.

Mas a incineração é também um modelo de gestão que não tende a reduzir o volume de resíduos produzidos. Com a sua chamada “valorização energética” (obtenção de energia mediante a combustão), existe o risco de não travar, ou ainda de chegar a potenciar, o aumento da produção de novos resíduos.

Ainda por cima, a construção duma incineradora exige um enorme investimento (neste caso, aponta-se para o astronómico valor de 80 milhões de euros), sendo a sua rentabilidade económica muito duvidosa. Rentabilidade que acaba por ser claramente negativa quando se considera todo o ciclo energético dos materiais, o tratamento das cinzas e outros resíduos da incineração, os custos ambientais dos gases com efeito estufa e os custos para a saúde provocados pelos contaminantes.

Assim, qual é afinal a vantagem da incineração? A única vantagem parece ser para os maus gestores, pois aparentemente faz os resíduos “desaparecer no ar”. Como é bem sabido, quando um problema incomoda e revela a nossa incompetência, que melhor que queimá-lo? Ainda que, neste caso, nem sequer desaparece por completo, pois no rescaldo ficam as cinzas, um resíduo ainda mais tóxico.

Quais são as vantagens da RECICLAGEM? - Redução da quantidade de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) que vão para aterros sanitários, prolongando o tempo de vida útil destas infra-estruturas."

Estas sábias palavras pertencem a um folheto informativo da Associação de Municípios da Ilha de S. Miguel, titulado “Uma paisagem para preservar”... Esquecimento? Pouca memória? Novos interesses?

A recolha de resíduos orgânicos (até agora incluídos no lixo indiferenciado) e o seu tratamento e reutilização é já uma realidade, obrigatória, em todas as grandes cidades europeias. A sua implementação na ilha de São Miguel não seria também outra medida, mais barata, útil e efectiva, para a redução de resíduos que vão para os aterros sanitários?

É provável que o fantasma da incineração, invocado pela negligência e a falta de ideias, volte a vaguear entre nós mais algum tempo.

© DMS. Ambiente insular. 2004.
http://www.ambienteinsular.uac.pt/humor.htm

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As causas da abstenção

Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, 78% dos açorianos não considerou útil ir votar. Esta é parte da intervenção do deputado Aníbal Pires, da CDU, na Assembleia Regional sobre as causas da abstenção (ver Texto completo):


"São os partidos que têm exercido o poder neste país nos últimos trinta anos, num rotativismo aparentemente sem saída, que têm, de forma deliberada e consciente, empobrecido e esvaziado a nossa democracia.

Semeiam a decepção quando rapidamente arrumam na gaveta dos chamados “imperativos de governação” as promessas eleitorais entusiásticas.

Cultivam o desânimo quando tentam passar a ideia de que não há alternativas, apenas nuances de estilo, na governação do país, estando os portugueses eternamente condenados sempre a mais do mesmo, com actores variáveis.

Espalham o desinteresse quando se atolam na pequena política e em estéreis conflitos para encher páginas de jornais, passando ao lado da política real que o país precisa. Quando a generosidade dos dinheiros públicos parece inesgotável para salvar desastrosos e obscuros negócios bancários enquanto se mostra sempre parca, sempre escassa para ajudar os portugueses em dificuldades.

Difundem o descrédito quando a impunidade é a regra para os titulares de cargos políticos e empresariais – que aliás vão fazendo o jogo das cadeiras, rodando entre ministérios e administrações de grandes empresas –, deixando a culpa morrer sempre solteira e difusa. Escândalo atrás de escândalo, o descrédito agrava-se cada vez mais, no rasto dos casos mediáticos e dos processos em tribunal, sempre anulados, sempre arquivados, sempre esquecidos.

Propagam o desalento pela partidarização do aparelho do Estado, alimentada por uma densa teia de quadros que ocupam, designadamente por nomeação, lugares estratégicos da Administração e do aparelho do Estado, ou que beneficiam da concessão de áreas e funções nos serviços públicos, tendo por base decisões ditadas não por razões de interesse público, mas sim de favorecimento de posições e influência do partido no poder.

Avançam na subordinação do poder político ao económico, dando continuidade a um processo em que o Estado é reflexo do poder económico e, simultaneamente, agente activo na prossecução dos interesses desse poder. Procuram reconfigurar o aparelho administrativo, orientando-o para a redução de funções e responsabilidades sociais do Estado e reduzindo-o a funções de soberania, de justiça e repressivas.


A verdade, senhoras e senhores Deputados, é que o regime democrático saído da Revolução de Abril, correspondendo a uma nova realidade na sociedade portuguesa consagrada na Constituição da República, tem tido nos detentores do poder e na política de direita o seu principal inimigo e agressor.

Resultado de um longo processo de descaracterização, suportado em sucessivas revisões constitucionais e sobretudo na produção de legislação ordinária (muita dela contrariando o texto constitucional), o regime democrático, num Portugal cada vez menos soberano, apresenta-se politicamente empobrecido e desfigurado, amputado da sua dimensão social e económica originária e crescentemente asfixiado pelos grandes interesses económicos.

A evolução da vida política nacional fica marcada pelo permanente conflito de mais de três décadas entre a acção e os objectivos prosseguidos pelos sucessivos governos do PS e PSD, com ou sem o CDS-PP, e o carácter progressista e avançado do regime democrático, e da activa intervenção do poder dominante para o procurar amputar, limitar e liquidar.

A democracia, em Portugal, apresenta-se hoje crescentemente reduzida à sua dimensão meramente formal, bem distante do regime democrático que a Revolução originou e a Constituição de 1976 consagrou. Assim, perguntam os portugueses: participar para quê?”

Contacto Verde nº 78

Último Boletim informativo quinzenal do Partido Ecologista "Os Verdes":

CONTACTO VERDE nº 78 (15/01/2010)

Nesta edição da Contacto Verde, o destaque vai para o debate e a nova legislação sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção.

Em entrevista, Victor Lamberto, que tem dinamizado o Convivium Alentejo – Slow Food Alentejo, dá a conhecer este movimento que se insere numa dinâmica internacional e promove o desenvolvimento local.

No Em debate, aborda-se o novo acordo conseguido entre professores e Ministério da Educação.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ponta Delgada: cidade proibida às pessoas

Ao longo das últimas décadas os carros têm invadido progressivamente o espaço urbano. As ruas foram ocupadas pelo trânsito dos veículos, e ainda pelo seu estacionamento, privando inúmeras vezes as pessoas dum espaço que é necessário e fundamental para o desenvolvimento normal da sua vida. As pessoas frequentemente são empurradas para passeios estreitos, intransitáveis e sem condições. E esta situação é ainda pior para as pessoas mais fragilizadas, como idosos, doentes, grávidas ou crianças, que em muitos lugares simplesmente estão impossibilitados de utilizar as ruas.

Os carros ocupam a maioria do espaço nas cidades. São também responsáveis por mais de 80% da contaminação atmosférica e por mais de 90% da contaminação acústica. E ainda são responsáveis cada ano por centenas de vítimas por atropelamento em Portugal. Considerando a velocidade com que os carros circulam nas cidades, a tão escassa distância das pessoas, percebe-se que ser distraído pode assim converter-se facilmente numa sentença de morte. As ruas estão, portanto, muito longe de ser o espaço de paz e convívio que deveriam ser.

A cidade de Ponta Delgada é o triste exemplo duma cidade que exclui as pessoas do espaço urbano. Nesta cidade é quase impossível andar normalmente pelas ruas. Uma quarta parte dos passeios são tão estreitos que não permitem a passagem nem sequer duma pessoa, ou às vezes simplesmente não existem. Uma parte equivalente só tem a largura suficiente para permitir a passagem duma única pessoa. Afinal, só uma quarta dos passeios da cidade tem a largura exigida pela lei (uma largura não inferior a 1,5 m.) ou têm, nalguns casos, características pedonais.

Mais informação em: http://andanteurbano.blogspot.com


O mais revoltante é que o estacionamento de carros é permitido mesmo nas ruas que têm passeios mais estreitos. Isto é, para além do espaço destinado ao trânsito dos veículos, os carros estacionados ocupam quase a totalidade do restante espaço, não deixando quase nada para os passeios. No mínimo, estes carros deveriam estar proibidos de estacionar para assim poder ampliar os passeios, cumprindo a exigência legal. O estacionamento nestas ruas resulta ainda mais absurdo considerando que existem parques de estacionamento completamente gratuitos muitas vezes a pouca distância. Os parques gratuitos da cidade têm capacidade para acolher quase todos os carros que ocupam estas ruas durante o período nocturno. E durante o período laboral, podem acolher no mínimo uma terceira parte dos carros.

A cidade de Ponta Delgada é um exemplo de como a falta de vontade política deixa piorar progressivamente a qualidade de vida das pessoas. Mas também é um exemplo do incumprimento das leis, que exigem aos municípios adequar as condições de mobilidade dos espaços públicos. O Decreto-Lei n.º 163/2006, para além de definir a largura adequada para os passeios, estabelece que todos os espaços que não cumpram as normas deverão ser adaptados até aos anos 2011 ou 2016. Após este prazo, o incumprimento das normas poderá ser sancionado, podendo levar mesmo à perda de mandato municipal. No entanto, apesar disto, as novas obras que são realizadas actualmente nas ruas de Ponta Delgada continuam a não respeitar as pessoas e a ignorar as leis.

Muito deve mudar na governação das câmaras municipais. Mas também muito deve mudar na mentalidade de muita gente para conseguir que o espaço urbano seja devolvido finalmente às pessoas. Cada vez é mais evidente que a utilização do carro particular dentro das cidades é uma forma de transporte contaminante e insustentável, responsável ainda por boa parte das emissões de carbono lançadas à atmosfera. Por tudo isto, a mudança é necessária.


Contacto Verde nº 77

Último Boletim informativo quinzenal do Partido Ecologista "Os Verdes":

CONTACTO VERDE nº 77 (Dezembro 2009)

Nesta edição da Contacto Verde, o destaque vai para a Cimeira de Copenhaga e a “Global Climate Campaign”, a que “Os Verdes” aderiram com iniciativas próprias.
Em entrevista, Francisco Madeira Lopes, membro da Comissão Executiva do PEV, conhecidas as decisões finais de Copenhaga, analisa as razões de um processo que se arrasta e as medidas que seriam necessárias.
No In Loco, David M. Santos aborda a realidade dos carros particulares e da gestão do espaço urbano.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Insolência climática

Os quatro activistas da Greenpeace detidos durante a cimeira de Copenhaga foram finalmente libertados depois de passar 21 dias em prisão preventiva.

Os activistas, o espanhol Juan López de Uralde (director da organização em Espanha), o suíço Christian Schmutz, a norueguesa Nora Christiansen e o holandês Joris Thijssen foram detidos no dia 17 de Dezembro por entrar num jantar oferecido pela rainha da Dinamarca aos chefes de estado mundiais. O seu protesto, completamente pacífico, consistiu em abrir uns cartazes que diziam “os políticos falam, os líderes actuam”.

Detidos imediatamente pela polícia, os activistas foram enviados à prisão de Vestre Fængsel e mantidos num regime de isolamento. Passaram as primeiras 24 horas num quarto só com um colchão, uma luz permanentemente acesa e uma câmara de vigilância. Depois permaneceram o resto do tempo isolados en celas, sempre “humilhados e tratados como cães”. A única visita, permitida só recentemente, teve lugar com a presença contínua da polícia e no meio dum tratamento humilhante. Os activistas, já em liberdade, ficaram agora à espera de julgamento.

A Greenpeace considera a prisão dos quatro activistas como “um atentado contra os direitos humanos e um acto desproporcionado, injusto e desnecessário". Também consideram a acção dos quatro detidos como “um acto de moralidade diante da imoralidade dos líderes mundiais”.

Fecha assim, com mais um capítulo de ouro para a história, a Conferência do Clima...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Os governantes mundiais acordam destruir o planeta Terra

Os governantes de todos os países, reunidos a semana passada em Copenhaga, decidiram destruir o mundo já ao longo do presente século XXI.

O acordo assinado na Dinamarca por representantes de todos os países permite continuar a poluir indefinidamente a atmosfera do planeta e aumentar ainda mais o aquecimento do clima. Os signatários mostraram-se confiantes de que, desta forma, a economia mundial continuará a crescer como até agora, mesmo que o planeta e a humanidade inteira venham entretanto a desaparecer. Esta ocorrência até seria vista como um facto positivo, devido à imediata descida das cifras do desemprego, da fome e da pobreza. E também seria positivo pela falta de necessidade de aplicar novas medidas de preservação do ambiente, que sempre constituem um indesejável e oneroso entrave ao desenvolvimento.

Depois duns trabalhos preparatórios de vários anos, a Conferência de Copenhaga saldou-se assim com um complexo e detalhado acordo de… muitas páginas (um número maior de dois e menor de quatro) que define claramente o que os países devem fazer para destruir o mundo.

Os governantes mundiais conseguiram assim:

- Assinar um acordo não vinculativo. Desta forma, todos os países podem continuar a poluir a atmosfera da forma que melhor entenderem. Não há nenhuma regulação. Os países mais poluentes ficam assim a ganhar com a maior utilização de combustíveis fósseis, enquanto os países menos poluentes ficam a pagar as suas consequências, já que a atmosfera e o clima são comuns. A injustiça e o abuso são assim consagrados e potenciados pelo novo acordo.

- Aumentar o aquecimento do planeta. Os actuais governantes decidiram aumentar a temperatura do mundo em 2º C. Todos concordaram em que estes dois graus não fazem mal nenhum ao planeta. E também concordaram que superar este limite não está, para já, entre os seus objectivos, se bem que vão trabalhar para isso.

- Criar um fundo monetário destinado aos países pobres. O objectivo deste fundo é ajudar os países pobres, os mais afectados, a adaptar-se à mudança climática. Graças a este dinheiro, os povos que vão passar sede vão poder treinar para não beber água, os que vão passar fome vão poder aprender a não comer, e os que vão morrer vão poder pagar-se um funeral faustoso e de grande pompa. Tudo isto, claro, se o dinheiro não for acabar no bolso de umas empresas multinacionais, como sempre.

Com este acordo cria-se ainda um clima de guerra. Os países mais pobres vão ser destruídos pela fome, a seca, o aumento do nível do mar, a desflorestação, a perda de biodiversidade … E todo graças aos países mais industrializados, que vão continuar a poluir a atmosfera tal como até agora. A agressão ambiental vai ser muito pior que a habitual agressão armamentista, mas os países pobres não têm capacidade para defender-se duma nem doutra.

Mas curiosamente, os países ricos também vão sofrer a sua própria agressão ambiental. Portugal, por exemplo, já pode comprovar como a alteração do clima está a converter todo o Alentejo numa zona desértica, sofrendo já uma seca crónica, ou também como todas as suas florestas estão a arder e desaparecer progressivamente. Se um exército estrangeiro entrasse no país e arrasasse metade dele, não fazia tantos estragos e tão permanentes como faz a actual agressão climática (para a qual, lembremos isto, contribui o próprio Portugal).

Alguém pode perguntar-se: mas afinal qual é o interesse dos actuais governantes do mundo em destruir o planeta? Evidentemente, nenhum. O presente acordo é simplesmente consequência do fanatismo, da ignorância e da estupidez, todos eles em grau superlativo nos actuais representantes do mundo.

Embora uns tentem acusar os outros pelo resultado da conferência, nenhum deles escapa à vergonha. Uns torpedearam a conferência, outros calaram-se por dinheiro, outros maquinaram às escondidas, outros aceitaram apoiar qualquer coisa, outros adiaram tomar qualquer decisão… Mas nenhum deles protestou pelo crime que estava a ser assinado.

Se o fanatismo, a ignorância e a estupidez são características dos governantes do mundo, quais serão então as características próprias de nós, os governados, que seguimos apoiando ou aceitando incondicionalmente os seus crimes sem nunca reagir nem fazer nada?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Conferência de Copenhaga foi rotundo fracasso

Comunicado de Imprensa 19-12-2009

"Os Verdes" consideram que a conferência de Copenhaga resultou num rotundo fracasso.

Com efeito, nem se chegou a um acordo vinculativo, mas nem tão pouco se traçaram metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa, nem se definiu um prazo para que um futuro acordo venha a estar definitivamente estabelecido.

O PEV relembra que o período de cumprimento de Quioto está a chegar ao fim (termina em 2012) e, depois disso, há um vazio absoluto na definição de metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa.

"Os Verdes" atribuem a responsabilidade deste fracasso aos chefes de Estado e de Governo, com particular responsabilidade para os EUA, que arrastaram as negociações até ao último minuto e que, definitivamente, demonstraram que desde a cimeira de Bali (em 2007) até à conferência de Copenhaga, não mais pensaram nem agiram para o sucesso das negociações. De resto, Obama, havia afirmado, antes da conferência de Copenhaga, que julgava ser muito difícil chegar a um acordo vinculativo.

Como se prova, é caso para dizer, em jeito de uma ironia de revolta, que a conferência de Copenhaga, quase mais não serviu do que para elevar, neste período, a emissão de gases com efeito de estufa com as inúmeras e numerosas delegações que lá se deslocaram... para nada!!

Tudo fica agora adiado para 2010. esperemos que os Chefes de Estado e de Governo entendam que até lá têm um trabalho contínuo a fazer, de modo a que em 2010 não assistamos a um novo fracasso... porque o Planeta precisa de soluções e estamos na eminência de uma crise climática que urge ser resolvida.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Conferência de Copenhaga

O Conselho Nacional do PEV
Lisboa, 12 de Dezembro de 2009


Estamos a meio das duas semanas de trabalhos da Conferência de Copenhaga, que reúne 192 Estados com vista à realização de um acordo global para o combate às alterações climáticas e o PEV não está satisfeito com o decurso dos trabalhos.

Até à data ainda não se sabe se haverá condições para se chegar a um acordo vinculativo, o que demonstra que o combate às alterações climáticas não está tomado como uma prioridade mundial e que se continuam a pôr muitos outros interesses acima deste objectivo global, quando se conhece os efeitos devastadores ao nível económico, social e ambiental que o aquecimento pode vir a ter durante este século, conforme têm indicado os resultados dos 4 relatórios já produzidos pelo IPCC (International Pannel of Climate Change).

A postura dos EUA tem fragilizado muito os eventuais resultados da conferência de Copenhaga. O PEV considera inadmissível que os EUA se proponham a uma meta de redução de gases com efeito de estufa s na ordem dos 3% (se tivermos como valor de referência o ano de 1990), quando se sabe que qualquer meta de redução abaixo dos 25% não contribuirá para atingir níveis de estabilidade mundial que são necessários. Os EUA têm aqui uma dupla responsabilidade mundial que não é de descurar: por um lado são o maior poluidor per capita, e, por outro lado, a sua postura contribuirá para arrastar outros países como a China e a Índia que não integraram o rol de países industrializados no protocolo de Quioto, mas que agora, face aos seus níveis de emissões, não podem ficar de fora. O PEV salienta que se os EUA mantiverem esta proposta ridícula de redução de emissões de gases com efeito de estufa estão a dar um dos maiores contributos para declarar futuras guerras climáticas no mundo.

A União Europeia poderia, na perspectiva do PEV, estar a demonstrar uma posição muito mais forte e determinada, quando leva para Copenhaga uma proposta de redução de emissões de 20% (abaixo dos indicadores do IPCC). Mais, a União Europeia definiu, no seu Conselho Europeu reunido ontem, que disponibilizará uma verba de 7 mil milhões de euros para os países em desenvolvimento, no seu combate ao aquecimento global, mas importa referir que não se está a falar de qualquer montante adicional ao já previsto, o que o torna claramente insuficiente (especialmente quando se continua a gastar tanto em componentes militares – Obama apresentou o maior orçamento militar desde o pós grande guerra, também é bom lembrar) e, para além disso, esse compromisso financeiro remete-se apenas até ao ano de 2012, quando importaria também tratar de metas financeiras para o período pós-Quioto, ou seja, justamente a partir de 2012.

Portugal apresenta-se em Copenhaga com uma posição fragilizada quando não adoptou medidas internas eficazes para a redução de emissões de gases com efeito de estufa, quando continua a tomar medidas no sector dos transportes (o sector que mais tem aumentado os níveis de emissões de CO2) que contrariam esse objectivo e quando vai cumprir apenas administrativamente as suas metas de Quioto, pela compra de quotas de emissões ao estrangeiro, gastando desta forma incompetente o dinheiro dos contribuintes que se encontra no Fundo Português de Carbono.

“Os Verdes” marcaram este dia, juntamente com inúmeros movimentos e partidos ecologistas em vários pontos do mundo, com uma iniciativa de rua na baixa de Lisboa, onde contactaram directamente a população e fizeram um apelo à sensibilização e a uma postura de reivindicação de responsabilidade por parte dos chefes de Estado e de Governo dos países mais industrializados na implementação de medidas internas como o consumo local, que tem implicações extraordinariamente eficazes na redução de CO2.

“Os Verdes” manter-se-ão atentos ao decurso dos trabalhos de Copenhaga e, embora as expectativas não se demonstrem elevadas, desejam que se consiga chegar a um acordo global que contribua para salvar o planeta. O PEV assumirá uma posição atempada sobre as conclusões definitivas de Copenhaga, cujos trabalhos se concluirão no próximo dia 18.


Conclusões do Conselho Nacional do Partido Ecologista "Os Verdes"
http://www.osverdes.pt/

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Acção global contra as alterações climáticas

As alterações climáticas estão aí e são um dos problemas ambientais mais graves que se colocam à vida no planeta.

Os riscos decorrentes da subida média da temperatura e as alterações avassaladoras que esta provoca no meio ambiente já se fazem sentir em vários pontos do mundo, com situações climáticas extremas (secas, inundações, temporais, cheias) e com a subida do nível dos mares, ameaçando populações, património e biodiversidade.

Uma situação que já ninguém pode ignorar, tanto mais que esta tem por principal causa a actividade humana e os modelos de crescimento económico que geram graves problemas ambientais, entre os quais as emissões de gases com efeito de estufa.

Da redução de emissão destes gases, em cerca de 20 a 40% até 2020, e entre 80 a 95% até 2050, tendo por base as emissões mundiais de 1990, depende, segundo a comunidade científica internacional, a contenção do aumento da temperatura global e a nossa sobrevivência comum.

Por isso, é fundamental que durante a Conferência do Clima, que está a decorrer em Copenhaga, em todos os cantos do mundo se façam ouvir vozes no sentido de obrigar os governantes a adoptar compromissos vinculativos, a delinear estratégias eficazes e a tomar medidas concretas para a redução dos gases com efeito de estufa.

Ninguém pode continuar à margem das mudanças urgentes e fundamentais, nem países como os EUA - que são os maiores poluidores do mundo e que se recusaram a subscrever os compromissos do Protocolo de Quioto - nem os países subdesenvolvidos, ou em vias de desenvolvimento, que, tendo também direito ao seu desenvolvimento, não podem repetir e seguir pelos caminhos do crescimento desgarrado com impactos sociais e ambientais dramáticos, que foram prosseguidos pelos ditos países desenvolvidos e que nos colocam hoje perante esta ameaça; nem a União Europeia, que ainda não deu provas de conseguir cumprir até 2012 com os modestos compromissos assumidos em Quioto; nem Portugal que, na cauda da Europa nesta matéria, apresenta 11% de emissões de carbono a mais do que se comprometeu a atingir até 2012; nem nenhum de nós, cujas acções e modo de vida contribuem também para este facto.


Grave ainda é o facto dos resultados apresentados por Portugal estarem não só longe de atingir o compromisso assumido, como serem na realidade obtidos através dum mecanismo artificial de compra e venda de emissões, usando 90 % do Fundo Português de Carbono (115 dos 127 milhões de euros), mecanismo este que não passa duma espécie de “multa por poluição” e que esconde a dimensão real das emissões de gases com efeito de estufa, que se situam num patamar bem superior aos 11%. Portugal só investiu 10% do Fundo Português de Carbono na tomada de medidas efectivas de redução das emissões de gases com efeito de estufa.

A ausência de uma política de transportes públicos eficientes, o encerramento de muitos quilómetros de via férrea em Portugal, o desmantelamento do transporte ferroviário de mercadorias e uma “cultura” obsessiva de promoção de uma política de transportes alicerçada no sector rodoviário mergulhou o País num elevado consumo de combustível fóssil (nomeadamente, o petróleo) com elevadas repercussões no aumento das emissões de CO2 originadas por este sector.

A ausência de combate ao desperdício energético, que atinge perto de 30% em Portugal, e a promoção de uma política energética baseada no incentivo ao aumento de consumo é outro dado que contribui para agravar as emissões de CO2 e põe em causa as medidas de adaptação que seriam necessárias tomar para acautelar e minimizar as consequências ambientais geradas pelas alterações climáticas que afectam o nosso país. O Programa Nacional de Barragens é um dos exemplos mais flagrantes duma resposta errada para o problema energético. Estas barragens, contrariamente à propaganda da EDP e do Governo, vão agravar os problemas já decorrentes das alterações climáticas, como a a perda de biodiversidade e a degradação da qualidade da água, vão aumentar os riscos para as populações, nomeadamente com a erosão da orla costeira resultante da conjugação do aumento da retenção de inertes com a subida do nível dos mares.

O desmantelamento da agricultura portuguesa, decorrente da aceitação cega pelos sucessivos governos portugueses das regras da Política Agrícola Comum e da Organização Mundial do Comércio, mergulhou o País numa total dependência alimentar. Importamos cerca de 75% dos alimentos que consumimos. Todos estes produtos percorrem milhares de quilómetros, em camiões TIR, por barco ou avião, antes de chegarem às prateleiras dos hipermercados, contribuindo para o aumento das emissões de CO2 em Portugal.

Segundo um estudo do IPCC, Portugal é um dos países da União Europeia mais afectados pelas alterações climáticas.

É o nosso futuro que está em causa! É preciso, é urgente reagir e agir.


“Os Verdes” apelam a:

Lutar por mais e melhores transportes públicos e sempre que possível optar por se deslocar em transportes colectivos ou recorrer a transportes menos poluentes, como, por exemplo, o comboio ou a bicicleta.

Recusar o Programa Nacional de Barragens e tomar o máximo de medidas em sua casa para combater o desperdício e poupar energia.

Defender a agricultura portuguesa e optar por consumir produtos locais, exigindo a sua presença nas prateleiras dos hipermercados.

As alterações climáticas não se compadecem com declarações demagógicas e de “faz de conta”; exigem a tomada de medidas concretas e uma mudança de atitudes.

Comece já hoje!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cimeira de Copenhaga - “Os Verdes” defendem que o clima deve assumir preocupação central

Comunicado de Imprensa 07-12-2009

Inicia-se hoje, em Copenhaga, a cimeira das Nações Unidas sobre o Clima. Apesar das muitas expectativas criadas em torno da mesma, mormente devido ao falhanço que representou o cumprimento do Protocolo de Quioto pela parte de muitos Estados, como é, infelizmente, o caso de Portugal, que foram arrastando a sua inacção, negligentemente adiando o cumprimento dos compromissos assumidos ou mesmo a tomada de medidas para fazer regredir a mudança climática cada vez mais evidente. Já todos percebemos que Copenhaga não será o marco que o mundo necessita, não será o firmar de um novo acordo à escala global sobre o clima para o período de Pós-Quioto, mas sim mais uma etapa para queimar e voltar a adiar.

Esta tem sido uma grande preocupação sempre presente na agenda d' “Os Verdes” que tem sido uma voz permanente denunciando que, se Portugal está hoje mais longe de conseguir reduzir os níveis de poluição para valores semelhantes aos de 1990+27%, isso deve-se a uma grande falta de vontade política e a uma concepção do desenvolvimento insustentável e irracional do país que não tem perspectivado o futuro e muito menos o bem estar das populações.

Hoje pressente-se que a Cimeira de Copenhaga será uma frustração. Os grandes países desenvolvidos não conseguiram dar o salto e encarar o problema do Dióxido de Carbono, do petróleo e do clima como uma questão de sobrevivência e de futuro. Será mais um assumir de tímidos passos e de quase inócuos compromissos. Convém lembrar que um novo compromisso político (e não juridicamente vinculativo) foi o que saiu da Conferência de Bali, há dois anos! Sair de Copenhaga com novo compromisso político e nenhum Tratado Internacional é assumir que estes últimos dois anos foram tempo perdido, tempo precioso que não nos podemos dar ao luxo de perder…

“Os Verdes”, com base nas preocupações, alertas e dados da comunidade científica sobre o que é fundamental e inadiável fazer, assumiram que um compromisso lógico, realista e eficaz exigiria a redução, até 2020, em 40% dos gases com efeito de estufa na Atmosfera, com base nos valores de referência de 1990 e em 80% até 2050. Só assim, e segundo os peritos do clima, se conseguirá evitar que a temperatura média do Planeta suba mais de 2º C!

Ora pelo que já vimos que está em cima da mesa, teremos mais do mesmo, muitas boas intenções, pequenos passos e grandes discursos. Portugal nestes anos e com diferentes Governos conseguiu não dar prioridade a esta questão e mesmo inverter a sua lógica. Se as subidas do preço do petróleo e o desmantelar do sector produtivo e industrial do país fizeram mais pela redução da nossa contribuição climática do que qualquer outra medida que algum Governo tenha implementado, elas não só não conseguiram definitivamente levar Portugal assumir só o aumento de 27% de GEE, com referência a 1990, como contribuíram antes para uma maior dependência do nosso país do exterior.

O desmantelamento dos transportes públicos, o aumento abissal dos seus preços e a sua degradação, o aumento do recurso ao automóvel, muitas vezes por falta de alternativas, a desactivação de linhas ferroviárias, o aumento da importação de mercadorias e bens de consumo devido à destruição do aparelho produtivo nacional, foram opções políticas assumidas por sucessivos governos de Portugal que contribuíram para que neste momento estejamos muito longe de poder cumprir o Protocolo de Quioto sem ser pela via das multas (comprando licenças de emissões ou com investimento em países terceiros).

O Partido Ecologista “Os Verdes” irá associar-se, no próximo dia 12 de Dezembro, ao movimento internacional e a milhares de organizações, movimentos e partidos verdes, para protestar contra a falta de medidas e a urgência de se encarar as alterações climáticas como provavelmente o maior problema do Século e para que se chegue a um acordo duradoiro e realista em Copenhaga.

O Gabinete de Imprensa de “Os Verdes”
(T: 213 919 642 - F: 213 917 424 – TM: 917 462 769 - imprensa.verdes@pev.parlamento.pt)
http://www.osverdes.pt/
Lisboa, 7 de Dezembro de 2009


ACÇÃO DE SENSIBILIZAÇÃO - “GLOBAL CLIMATE CAMPAGNE”
Sábado – 12 de Dezembro – 11.00/12.30h
Rua Augusta, no cruzamento com a Rua da Vitória – Lisboa

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A cimeira dos vendavais

Começou a conferência climática de Copenhaga, da qual deverá sair um novo acordo para combater o aquecimento mundial do clima. Os cientistas estimam que, para evitar uma catástrofe climática a nível mundial, as emissões de gases com efeito de estufa devem reduzir-se, até 2050, a uma quantidade equivalente a metade do que eram em 1990. O aquecimento climático, resultante da contaminação atmosférica, poderá provocar efeitos catastróficos no futuro: grandes secas e desertificação de amplas regiões do planeta, uma progressiva falta de água potável, grandes incêndios e desflorestação, a subida imparável do nível do mar, o aumento de fenómenos atmosféricos cada vez mais violentos, etc.

Mas, pior ainda, estes efeitos catastróficos não são unicamente coisa do futuro. Na realidade, estão já a produzir-se. Ainda que seja difícil provar que um fenómeno concreto é consequência do aquecimento do clima, cada vez é mais evidente que a frequência e a intensidade com que hoje eles se produzem são consequência inquestionável da alteração do clima. Os danos ambientais, económicos e de vidas humanas provocados pelo aquecimento climático são uma realidade que podemos ver a cada dia que passa, e são quantificáveis.

Apesar do optimismo e a esperança com que esta conferência começa, os negociadores que representam os países mais poluidores e desenvolvidos do planeta chegam a esta conferência dispostos a reduzir a suas emissões só se for alcançado um acordo, isto é, só se os outros reduzirem também a suas emissões. Para estes negociadores, esta conferência não passa de um simples acordo comercial, inserido na lógica de uma economia “globalizada”, de uma economia que deve necessariamente competir e lutar com as outras economias para conseguir impor-se e sobreviver.

Se realmente é o futuro do planeta e da humanidade que está em perigo, o lógico seria que os governantes mundiais reduzissem imediatamente as emissões dos seus países, independentemente do que fizessem os outros. E se, por acaso, outros países continuassem a poluir a atmosfera, ameaçando o futuro de todo o planeta, estes países deveriam ser punidos a todos os níveis. Para começar, fechando-lhes as fronteiras comerciais. Lembremos, por exemplo, que grande parte da produção de países poluidores como a China ou a India é destinada a ser vendida fora, especialmente no ocidente. E que, pela sua vez, todos estes países importam enormes quantidades de matérias-primas que precisam para alimentar a sus indústrias e as suas poluentes sociedades.

Mas esta cimeira poderia ser ainda pior que um simples acordo comercial. Para James Hansen, um dos mais eminentes estudiosos do clima, o problema climático transformou-se num negócio de compra e venda de direitos de emissões. Na sua opinião, é preferível que a cimeira redunde em fracasso, dado que o ponto de partida é profundamente defeituoso, e mais valia, portanto, começar tudo do zero.

No mundo, 56 jornais em 44 países publicam hoje um editorial comum: “Os políticos em Copenhaga têm o poder de moldar a opinião da História sobre esta geração: uma geração que encontrou um desafio e esteve à altura dele, ou uma geração tão estúpida que viu a calamidade a chegar, mas não fez nada para a evitar.”

A qual destas duas gerações queremos nós pertencer? São, portanto, os actuais governantes do mundo os governantes da nossa geração? É a eles que devemos confiar, sem motivo, as nossas vidas?

sábado, 5 de dezembro de 2009

Plano e Orçamento para 2010: propostas da CDU marcaram a diferença

Dando corpo aos compromissos assumidos com os açorianos no seu Manifesto Eleitoral, a CDU Açores interveio de forma crítica, firme e construtiva no debate do Plano e Orçamento da Região para 2010 e conseguiu marcar efectivamente a diferença pela relevância da sua intervenção e pelo conteúdo das suas propostas, que correspondem a alguns dos problemas mais agudamente sentidos nos Açores.

De facto, a CDU conseguiu fazer aprovar um conjunto de medidas que irão ter impactos directos e positivos na vida dos açorianos, nomeadamente:

- O reforço de verbas para o Plano Regional de Combate à Precariedade, Subemprego e Trabalho Ilegal, em 170 mil Euros, de forma a tornar finalmente operacional este instrumento de combate às múltiplas situações de trabalho precário ou ilegal que se têm generalizado no nosso arquipélago;

- O reforço de meios para a Inspecção Regional de Trabalho, reforçando as suas verbas em 200 mil Euros, para fortalecer um dos principais meios de fiscalização e defesa dos direitos dos trabalhadores, que tem sido cronicamente subfinanciado;

- A atribuição de subsídio de almoço aos jovens estagiários dos programas Estagiar, sendo uma responsabilidade assumida pelas empresas e não sobrecarregando as despesas regionais. Esta é uma causa pela qual a CDU Açores se tem batido e se continuará a bater, que é a da atribuição de direitos sociais mínimos aos nossos jovens no início da sua vida activa;

- A criação de um plano para melhorar a acessibilidade dos edifícios públicos pelos cidadãos portadores de deficiência, num investimento de 200 mil Euros destinados a suportar um conjunto de intervenções e adaptações para melhorar as condições e a dignidade do acesso dos cidadãos portadores de deficiência aos edifícios públicos;

- O reforço dos apoios às empresas artesanais, num valor de mais 100 mil Euros, para valorizar e divulgar os nossos produtos e saberes tradicionais, num sector que se tem expandido e que se revela uma mais valia importante para a Região;

- O Aumento do apoio ao Micro Crédito, num valor de 120 mil Euros, apostando nesta forma de empreendedorismo que tem ganhado cada vez mais relevância para a criação de emprego e melhoria de situações sociais.

A CDU Açores irá exigir do Governo Regional o efectivo cumprimento destas medidas e potenciará a sua eficácia através de futuras iniciativas políticas e legislativas.

Embora estes tenham sido factos positivos, a não aprovação de outras propostas apresentadas pela CDU Açores demonstra a falta de vontade da maioria socialista de efectuar a verdadeira e profunda viragem política que a situação do nosso arquipélago.

Assim, foram reprovadas as seguintes propostas:

- O aumento do Complemento Regional de Pensão para 60€, representando um esforço de investimento de 6 milhões de Euros, contribuindo para minorar os efeitos das pensões baixas que colocam tantos dos nossos reformados numa situação de verdadeira miséria e exclusão social;

- A aquisição de um barco especializado para o transporte de doentes entre as ilhas do Faial e do Pico, dando resposta a uma antiga aspiração das populações e evitando que as deslocações e evacuações de doentes continuem a ser efectuadas por embarcações mal adaptadas, sem condições e com grandes constrangimentos e atrasos;

- A criação de verdadeiros passes sociais, entendidos enquanto apoio ao preço do bilhete, diminuindo os custos para os utilizadores, e não como apenas a criação de bilhetes inter-modais, num esforço de investimento de 1 milhão de Euros;

- O Reforço de verbas para a Rede regional de Cuidados Continuados, no valor de 500 mil Euros, para melhorar o apoio aos idosos, doentes crónicos e cidadãos em situação de elevado grau de dependência;

- A efectiva implementação da Educação Sexual nas escolas da Região, através de uma dotação orçamental no valor de 100 mil Euros, cumprindo o que está já previsto na lei e criando finalmente este espaço fundamental de aprendizagem para melhorar a saúde sexual e reprodutiva das jovens gerações de açorianos;

- A obrigação de futuras privatizações de empresas regionais serem discutidas no Parlamento, considerando que pela relevância deste assunto o Governo deve discuti-lo na Assembleia Regional, que é a sede do poder Autonómico.

A CDU Açores não deixará de lutar por estas propostas, convicta da imperiosa urgência de uma real mudança de políticas que possa criar uma Região mais desenvolvida, equilibrada e justa.


30 de Novembro de 2009

O Deputado Regional do PCP

Aníbal Pires

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Novo livro sobre a Flora dos Açores

“Mais de dois terços da flora indígena açoriana, um património natural único dos Açores, corre sérios riscos de desaparecimento.”


Silva L, M Martins, G Maciel, M Moura. 2009.
Flora vascular dos Açores. Prioridades em conservação.
Amigos dos Açores & CCPA, Ponta Delgada.


No novo livro publicado são analisadas as prioridades de conservação de 179 espécies de plantas nativas dos Açores.

Das aproximadamente 947 espécies da flora vascular dos Açores, menos de 300 espécies são nativas, sendo o resto introduzidas. Dentro das espécies que são nativas, 72 são exclusivas dos Açores (endémicas), não existindo em nenhum outro lugar do mundo. Infelizmente, 52 destas plantas encontram-se seriamente ameaçadas.

O livro lembra o seguinte: “Os serviços ecossistémicos prestados pela biosfera incluem a manutenção dos elementos necessários à vida e bem-estar, alimentos, medicamentos, água e oxigénio. E, realmente, existe um limite para a capacidade de substituição, pelo engenho humano e pela tecnologia, desses serviços naturais, pelo que são de extremo valor.”

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Promover a incultura

As touradas à corda têm sido, nos últimos anos, um negócio florescente. Das 183 touradas à corda realizadas na ilha Terceira em 1996 passou-se às 268 realizadas no ano passado (um aumento de quase metade), sempre com apoios públicos. Mas os tempos agora são de crise e, no presente ano, o número de touradas realizadas diminuiu um pouco, com a realização de só 246 touradas à corda.

Qual é, portanto, a solução para assegurar que o negócio continue a crescer como até agora? A solução é, claro, ter grandes amigos nas câmaras municipais das outras ilhas. Se não se conseguem fazer mais touradas na Terceira, fazem-se numas outras ilhas quaisquer, não importa (para isto já não importa) se nessas ilhas existe ou não tradição nesta matéria. E na ilha de São Miguel parece haver, sem dúvida, grandes amigos. Há, por exemplo, no concelho da Lagoa, onde recentemente se realizou uma nova tourada (vacada para ser mais exactos), por ocasião das festas de São Martinho.

Se uma tourada à corda custa entre 750 e 3.500 € (mais licenças), some-se a isto o transporte do gado desde a Terceira a São Miguel, some-se também a isto a viagem desde a Terceira dos macacos que fazem graçolas à frente dos animais, multiplique-se todo isto pelo número de touradas à corda realizadas no presente ano no concelho e obter-se-á, afinal, um valor que revela a grande generosidade económica do concelho da Lagoa e o grande investimento que realiza actualmente na promoção da incultura.

Observando os jogos das crianças é possível saber o grau do seu desenvolvimento psíquico: quando as crianças se reúnem para divertir-se juntas sabemos que têm um desenvolvimento saudável, mas quando se reúnem para divertir-se à custa de outra criança sabemos que o seu desenvolvimento é deficiente. Agora, que podemos dizer, sobre os adultos, vendo as tristes imagens da recente tourada da Lagoa?

http://www.youtube.com/watch?v=rbDsPiTYbt4

Acossar um animal confuso e desorientado é divertido? É divertido puxar-lhe a cauda? É divertido enganá-lo com uns trapos para que bata de cabeça contra um tonel? É isto cultura? E ainda: pode uma instituição pública, como uma câmara municipal, incentivar e promover com dinheiros públicos este tipo de comportamentos? Pode um governo regional permiti-lo?

Hoje a diversão é à custa dum animal, mas amanhã pode ser à custa do idiota da aldeia ou de uma outra pessoa qualquer, desde que assegure a diversão necessária. É este tipo de espectáculos que queremos ver no futuro?

Quando a barbárie e a corrupção não são detidas a tempo acabam por alastrar e estender-se sem remédio. Parece já hora, por tanto, de acabar com a realização destes degradantes espectáculos em todas as ilhas!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pesca devastadora e insustentável

A pesca é o único recurso alimentar em que o homem continua a ser predador da natureza. Nas últimas décadas, a progressiva substituição das artes de pesca artesanais por modos de exploração industriais, de carácter claramente irracional, tem levado à sobreexploração dos valiosos recursos pesqueiros. Actualmente, a sobrepesca está a esgotar ou acabar com as reservas de peixe mundiais, ameaçando a sobrevivência das espécies marinhas, mas também da própria actividade piscatória tradicional que dela depende. Calcula-se que 75% das reservas mundiais de peixe estão totalmente exploradas, sobreexploradas ou mesmo esgotadas. E nas águas comunitárias este valor chega a 88%. Assim, o futuro dos mares e da pesca está em jogo e dependerá das medidas legais que venham a ser agora adoptadas.

Grande parte da destruição das reservas é devida a utilização de técnicas de pesca destrutivas, como as redes de arrasto utilizadas no fundo oceânico. Em 2006 uma moratória sobre a pesca de arrasto em águas internacionais foi apresentada nas Nações Unidas, que ditou a Resolução 61/105. Sobre este problema, pode ver-se o vídeo “O fundo da linha”, com apresentação de Sigourney Weaver (duração: 10 minutos) em:

http://www.greenpeace.org/portugal/videos/o-fundo-da-linha

Um outro documentário sobre a sobrepesca, “The end of the line”, foi recentemente apresentado. Podem ver-se excertos em: http://www.babelgum.com/endoftheline

Recomenda-se a visita das páginas da Greenpeace Portugal e da Plataforma PONG-Pesca:

http://www.greenpeace.org/portugal/
http://pongpesca.wordpress.com/

A Greenpeace Portugal iniciou uma campanha para alertar sobre a comercialização em Portugal de espécies de peixe que provêm de técnicas de pesca ou de viveiros insustentáveis. Esta campanha tenta sensibilizar os consumidores e os retalhistas para evitar este comércio, que leva à destruição das espécies e das reservas de pesca.

Foi ainda elaborada uma Lista Vermelha de espécies cuja venda está relacionada com a sobrepesca ou com técnicas de pesca insustentáveis. O consumo destas espécies coloca em sério perigo a sobrevivência destas espécies, a renovação das reservas de pesca ou os próprios ecossistemas marinhos.

A Lista Vermelha inclui as seguintes espécies:

-Alabote, Alabote da Gronelândia, Linguado europeu e Solha americana (Hippoglossus hippoglossus, Reinhardtius hippoglossoides, Solea solea, Hippoglossoides platessoides)
-Atuns (Thunnus obesus, T. thynnus, T. albacares, T. alalunga)
-Bacalhau do Atlântico (Gadus morhua)
-Espadarte (Xiphias gladius)
-Peixe espada branco (Lepidopus caudatus)
-Peixes vermelhos (Sebastes marinus, S. mentella, S. fasciatus)
-Pescadas (Merluccius merluccius, M. australis, M. hubbsi, M. capensis, M. paradoxus)
-Salmão (Salmo salar)
-Tamboris (Lophius americanus, L. piscatorius, L. budegassa)
-Raias (Dipturus batis, Dipturus laevis, Rostroraja alba, Atlantoraja castelnaui, Leucoraja melitensis)
-Tubarões (Galeorhinus galeus, Squalus acanthias, Prionace glauca, Isurus oxyrhinchus)
-Camarões (Litopenaeus vannamei, Metapenaeus monoceros, Parapenaeus longirostris, Penaeus monodon)

sábado, 7 de novembro de 2009

Golpe de estado na Europa

Quando acontece um golpe de estado num país qualquer, uma das primeiras medidas tomadas pelos golpistas costuma ser a anulação da Constituição do país. O regime legal existente é derrogado e substituído pelas exigências dos golpistas, impostas logo pela força das armas. Mas Europa é… diferente. O continente europeu é um lugar altamente requintado onde as coisas acontecem duma outra forma, sempre muito mais civilizada e cerimoniosa. Quando na Europa é dado um golpe de estado, os golpistas não derrogam a Constituição. Pelo contrário: impõem-na pela força.

Podemos ver isto com o chamado Tratado de Lisboa. Há uns anos os governantes europeus, todos eles muito liberais, levantaram-se com vontade de dar um novo golpe e de impor aos cidadãos europeus uma maior subserviência com respeito ao poder económico. Poderiam ter utilizado as armas para impor novamente a sua vontade, mas certamente isto teria sido pouco elegante. Em vez disso, decidiram impor aos europeus a chamada Constituição Europeia, um texto de carácter ainda mais neoliberal e retrógrado. E, respeitando a tradição e os bons costumes, submeteram esta Constituição a referendo nos diferentes países.

Mas, por um motivo qualquer, alguma coisa saiu mal. A França e a Holanda rejeitaram a Constituição em referendo. Foi um pequeno contratempo, mas nada que não se resolvesse facilmente. Bastou mudar o nome à Constituição e ignorar, mais uma vez, a vontade do povo. O texto chamar-se-ia agora Tratado de Lisboa. E todos os golpistas concordaram em que, para evitar mais problemas, era melhor não fazer mais referendos com este novo tratado. Portugal, por exemplo, que até havia modificado a sua Constituição nacional para poder fazer o referendo, renunciou a fazê-lo.

Mas esqueceram-se da Irlanda, cujo povo votou também contra. Novo contratempo. Como já não dava para mudar outra vez o nome do Tratado, os golpistas decidiram repetir uma outra vez o referendo na Irlanda. O povo é soberano, mas, como sabemos, para demonstrar que realmente o é, deve votar aquilo que lhe é ordenado.

Sob uma forte e persistente chantagem, e com a falsa oferta de alguns rebuçados, desta vez os irlandeses votaram aquilo que deviam votar. Até que enfim! E mesmo os checos, com os seus interesseiros jogos políticos, também concordaram. Finalmente Europa poderá ter um texto constitucional que adopta uns princípios que tão bons resultados deram para conduzir a Europa à crise. Nele adopta-se, por exemplo, a consagração do comércio livre, a criação duma economia altamente competitiva e de escala mundial, a liberalização dos serviços, uma constante expansão do consumo, a liberdade de movimentos de capitais, uma democracia de tipo representativo, a subordinação à NATO em matéria de defesa, etc. Sim, é um verdadeiro golpe de estado. Mas com muito requinte democrático…

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Descanso religioso

Depois do intenso período eleitoral dos últimos meses, a igreja vai poder finalmente ter o seu merecido descanso. Não, não é, certamente, que a igreja se tenha apresentado às eleições. Mas foram muitas as inaugurações oficiais realizadas durante a campanha eleitoral, sempre orientadas a captar o voto dos eleitores mais distraídos: colocação da primeira pedra de uma coisa qualquer, inauguração da primeira fase duma outra coisa qualquer, inauguração da segunda e a terceira fase da mesma coisa dantes… E, claro, nestas inaugurações todas nunca poderia faltar a presença dum padre a aspergir água benta para afugentar os maus espíritos. Agora, passada a frenética época eleitoral, impõe-se para os padres uma época de calma e de repouso.

É certamente curioso ver os padres a lançar água benta na inauguração de qualquer nova construção. Este costume, próprio doutros tempos, é já difícil de presenciar em qualquer país moderno e civilizado. Mas ainda mais curioso é presenciar este espectáculo nas inaugurações oficiais, promovidas pelos governos regional ou municipais, óbvios representantes dum estado português que se define como laico.

Apesar da Constituição portuguesa dizer que “as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado”, o certo é que nos Açores ambas instituições se misturam de uma forma completamente incompreensível. Para além de ser comum a presença da igreja nos actos públicos do estado, é também frequente e visível a participação dos governantes regionais e autárquicos nos actos religiosos.

No mês de Junho, por exemplo, foi possível ouvir um discurso da presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada na inauguração da nova Igreja de Nossa Senhora de Fátima, cuja construção foi promovida pela própria câmara. Não há dúvida de que há muito misticismo no ar dos Açores.

Já no mês de Setembro, foi a vez de ouvir uma breve missa, realizada por um padre autêntico, na inauguração oficial do Expolab, o novo Centro de Ciência construído no concelho da Lagoa. Este novo centro tem como principal objectivo “a divulgação científica no âmbito de temáticas relacionadas com as Ciências Naturais”.


Não deixa de ser estranha a realização duma missa para inaugurar um centro dedicado à ciência. E ainda por cima quando, no mesmo centro, era inaugurada uma exposição sobre a evolução biológica, no âmbito das celebrações do bicentenário de Darwin. A igreja demorou muitos séculos a reconhecer que Galileu não estava enganado. Apenas um século e meio após a publicação das suas ideias, Darwin foi agora benzido, por surpresa, nesta breve cerimónia religiosa realizada na Lagoa. Os Açores passaram assim a ser o primeiro lugar do mundo em que a igreja católica beatificou as teorias do sempre vilipendiado Darwin. Nisto sim, os Açores estão à frente do mundo!

Nota de imprensa da CDU/São Miguel

A Comissão Permanente da CDU/São Miguel analisou a situação decorrente do ciclo eleitoral deste ano e a actual situação política e social em São Miguel, na região e no país.

A CDU considera inadmissível o aumento da pobreza, decorrente em parte dos baixos salários: 55,3% dos trabalhadores açorianos recebem um salário mensal inferior a 600€ e na agricultura e pescas 63,5%. E também do desemprego, que no arquipélago e em particular na ilha de São Miguel aumentou exponencialmente 51,8% comparado com o mesmo mês de 2008.

A CDU/São Miguel manifesta a sua solidariedade para com os professores, atingidos pelas mais diversas injustiças nas escolas da ilha, e com os trabalhadores da ICTS, vítimas um despedimento colectivo ilegal por causa duma greve.

A CDU vai continuar a empenhar-se e a intervir com os trabalhadores, os agricultores, os pescadores e as populações para encontrar as respostas aos seus anseios e aspirações a uma vida melhor.

Ver Nota de imprensa