sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Rallye Mata-Priôlos


Será um momento emotivo de reencontro entre o desporto e a natureza. Mais exactamente, entre o desporto que fazem os carros, esses grandes e esforçados desportistas, e a fauna açoriana em perigo de extinção, entre a qual têm um lugar de destaque os nossos priôlos e as nossas narcejas europeias.

Com um bocado de sorte, na saída duma curva, este emotivo reencontro até poderá ser não só de índole espiritual mas também física: um priôlo ou uma narceja poderão ficar graciosamente estampados na parte frontal dum dos velozes e espectaculares carros de corrida.

Se isto já aconteceu há alguns anos nos Graminhais com uma vaca, que não sobreviveu ao embate (o carro, coitado, também não), porque não deverá suceder também este ano o mesmo em relação a estas simpáticas aves? Ainda existem umas quantas dezenas de priôlos no mundo e um punhado de narcejas na ilha de São Miguel, um número mais do que suficiente, talvez inclusivamente excessivo, para assegurar este singular espectáculo de reencontro com a mãe natureza.

Se não fossem os nossos governantes a financiar o “SATA Rallye Açores” e a autorizar, ano após ano, a sua passagem pelo interior da zona protegida de maior valor natural da ilha de São Miguel, constituida pela Serra da Tronqueira e pelos Graminhais, e ainda por cima no inicio da época de nidificação do priôlo, este fantástico e inesquecível reencontro com a natureza, tão físico, tão palpável, nunca teria lugar.

E sem dúvida vale a pena. Vale a pena deitar por água abaixo todo o investimento, regional e internacional, gasto na preservação do priôlo. Vale a pena converter uma zona natural protegida numa absurda e macabra pista de corridas. Vale a pena ignorar as leis nacionais e europeias de protecção das espécies ameaçadas. Afinal, depois de tudo, o rallye poderá ser talvez o único momento entusiasmante de contacto entre os açorianos e a natureza.

Já os turistas estrangeiros podem certamente pensar outra coisa. Mas o que importa a sua opinião e os seus escrupulosos gostos e ideias em relação à natureza ou à protecção das espécies em perigo de extinção. Eles que digam que os Açores não são um excelente destino turístico de natureza. Se tentarem fazer isso, aí estarão novamente os nossos governantes para desmentir a sua visão redutora do mundo, demasiado clarividente e próxima da realidade para ser certa.

Que parvoíce! Não há dúvidas de que a nossa região e os nossos governantes defendem convictamente a natureza. A única coisa que acontece é que a natureza tem o incómodo e feio costume de morrer, sem razão nenhuma, entre as nossas mãos.






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