quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Presépio tradicional ou atentado ambiental nas Furnas?

A câmara municipal da Povoação (São Miguel) inaugurou nas Furnas o tradicional presépio de Natal. Este presépio, que conta com cerca de 500 figuras e de 4.000 lâmpadas para a sua iluminação nocturna, é considerado pela câmara como um importante cartaz turístico do concelho.

O problema do presépio está no lugar que foi escolhido, como nos anos anteriores, para a sua instalação: o interior da zona das caldeiras das Furnas. É que a maior parte das figuras não foi instalada junto à zona das caldeiras, tal como seria de esperar, mas sim dentro dela, no seu interior.

Ora o campo fumarólico das caldeiras das Furnas é um biótopo singular e único nos Açores. Nele existe um grande número de nascentes termais com águas de natureza única, todas com diferentes condições de temperatura, acidez e composição de minerais. E muitas vezes estas nascentes encontram-se muito próximas, às vezes a poucos metros de distância, pelo que qualquer alteração no terreno pode dar lugar à sua alteração ou perda irreparável.

Mas estas nascentes termais albergam também uma biodiversidade única e de extraordinário valor. Nelas encontramos microorganismos duma variedade biológica impressionante, como bactérias fotossintéticas primitivas, que utilizam compostos químicos alternativos, ou arqueas, microorganismos unicelulares capazes de alimentar-se da energia química dos compostos presentes nas águas das nascentes. Estes microrganismos crescem formando os denominados tapetes bacterianos. E a lenta deposição de sais minerais que eles produzem cria os característicos terraços, dos quais felizmente ainda se conservam alguns restos na zona da vertente para a ribeira.

Assim, as caldeiras das Furnas formam um ecossistema raro e valioso, de características presentes em poucos lugares do mundo. Mas também constituem um ecossistema extraordinariamente sensível e delicado que deve ser preservado.

No entanto, as figuras do presépio, algumas delas enormes, estão situadas entre as caldeiras e fixas ao solo mediante estacas. Com a colocação destas estacas e com os trabalhos necessários para a sua instalação existe o grave risco de alterar a tipologia das nascentes, fazer desaparecer os microorganismos a elas associados ou danificar de forma irreparável os frágeis terraços ainda restantes.

Será que é mesmo necessário instalar as figuras do presépio dentro da zona das caldeiras, estragando ou arriscando-se a estragar um património geológico e biológico único no mundo? Será que é esta a melhor forma de conservar um património que, esse sim, é o principal cartaz turístico do concelho? E de que serve ter mesmo ali ao lado o Observatório Microbiano (OMIC), centro regional de ciência destinado a divulgar o valor único deste património natural, quando é desta forma tão pouco respeitado?

O concelho ganhava muito colocando as figuras do presépio simplesmente ao pé da zona das caldeiras e não no seu interior. Mas também o património natural dos Açores ganhava muito com isso.








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