A câmara municipal da
Povoação (São Miguel) inaugurou nas Furnas o tradicional presépio de Natal.
Este presépio, que conta com cerca de 500 figuras e de 4.000 lâmpadas para a
sua iluminação nocturna, é considerado pela câmara como um importante cartaz turístico
do concelho.
O problema do presépio
está no lugar que foi escolhido, como nos anos anteriores, para a sua
instalação: o interior da zona das caldeiras das Furnas. É que a maior parte
das figuras não foi instalada junto à zona das caldeiras, tal como seria de
esperar, mas sim dentro dela, no seu interior.
Ora o campo fumarólico das
caldeiras das Furnas é um biótopo singular e único nos Açores. Nele existe um
grande número de nascentes termais com águas de natureza única, todas com
diferentes condições de temperatura, acidez e composição de minerais. E muitas
vezes estas nascentes encontram-se muito próximas, às vezes a poucos metros de
distância, pelo que qualquer alteração no terreno pode dar lugar à sua
alteração ou perda irreparável.
Mas estas nascentes
termais albergam também uma biodiversidade única e de extraordinário valor.
Nelas encontramos microorganismos duma variedade biológica impressionante, como
bactérias fotossintéticas primitivas, que utilizam compostos químicos
alternativos, ou arqueas, microorganismos unicelulares capazes de alimentar-se
da energia química dos compostos presentes nas águas das nascentes. Estes
microrganismos crescem formando os denominados tapetes bacterianos. E a lenta
deposição de sais minerais que eles produzem cria os característicos terraços,
dos quais felizmente ainda se conservam alguns restos na zona da vertente para
a ribeira.
Assim, as caldeiras das
Furnas formam um ecossistema raro e valioso, de características presentes em
poucos lugares do mundo. Mas também constituem um ecossistema
extraordinariamente sensível e delicado que deve ser preservado.
No entanto, as figuras do
presépio, algumas delas enormes, estão situadas entre as caldeiras e fixas ao
solo mediante estacas. Com a colocação destas estacas e com os trabalhos
necessários para a sua instalação existe o grave risco de alterar a tipologia
das nascentes, fazer desaparecer os microorganismos a elas associados ou
danificar de forma irreparável os frágeis terraços ainda restantes.
Será que é mesmo necessário
instalar as figuras do presépio dentro da zona das caldeiras, estragando ou
arriscando-se a estragar um património geológico e biológico único no mundo?
Será que é esta a melhor forma de conservar um património que, esse sim, é o
principal cartaz turístico do concelho? E de que serve ter mesmo ali ao lado o
Observatório Microbiano (OMIC), centro regional de ciência destinado a divulgar
o valor único deste património natural, quando é desta forma tão pouco
respeitado?







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