sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Português bem falado: é austeridade ou é opressão?

Quando os nossos governantes, os de sempre, já não sabem outra coisa senão enganar o povo, são confrontados com a urgente necessidade de inventar um vocabulário novo e surpreendente com que poder encher todos os seus discursos. Com a utilização deste vocabulário, que roça muitas vezes a magia e o misticismo, eles tentam desesperadamente ocultar a mentira, o absurdo ou mesmo a perversão das suas políticas.

Todos conhecemos muito bem este vocabulário, pois somos obrigados a ouvi-lo constantemente, várias centenas de vezes por dia: ajuste orçamental, gorduras do estado, mercados internacionais, dívida pública, resgate financeiro, contágio dos mercados, aumento da competitividade, criação de postos de trabalho, ajuda externa, liberalização dos mercados, sacrifícios, confiança internacional… Palavras que nada significam ou que, a significar alguma coisa, significam exactamente o contrário daquilo que aparentemente deviam significar.

Nos últimos tempos, no entanto, uma palavra sobressai entre todas as outras, uma palavra que inunda, e até desborda, o discurso político dos nossos governantes: a austeridade. Esta parece ser a palavra de moda, a nova palavra mágica. Ora, nada é possível objectar contra a autêntica austeridade, que de facto constitui uma valiosa virtude e um exemplo a seguir tanto na vida pública como na vida privada. O rigor, a disciplina e a modéstia no estilo de vida são sempre atitudes dignas de louvor. No entanto, no discurso dos nossos governantes o significado que é dado à palavra austeridade é muito, mas mesmo muito diferente do seu significado original. O novo significado é mais ou menos o seguinte: “aperta o teu cinto para eu poder continuar a engordar ainda mais”.

As chamadas políticas de austeridade têm como objectivo apertar o cinto do povo, e apertá-lo mesmo até à exaustão: aumentos dos impostos indirectos, descida dos ordenados ou mesmo retirada duma parte deles, aumentos no preço dos transportes, aumentos no preço dos serviços básicos, pagamento de taxas para poder usufruir de direitos básicos, abandono das ajudas sociais… E tudo isto acompanhado com uma nova legislação que reduz os direitos das pessoas, para assim elas ficarem completamente indefesas ante tanto abuso. É isto austeridade ou é opressão?

Ao mesmo tempo, com as políticas de austeridade alguns continuam a engordar, e muito: os bancos e as grandes fortunas continuam pagando baixos impostos, os lucros do capital financeiro não pagam nada, os dividendos das operações financeiras são perdoados, os grandes grupos económicos continuam a receber subsídios… Mesmo em tempos de crise, os bancos continuam a engordar, mas quando um deles deixa um enorme buraco é o povo que tem de pagá-lo. E o mesmo acontece com os buracos que as bem alimentadas empresas privadas ou público-privadas deixam nos serviços públicos que foram privatizados. É isto austeridade ou é opressão?

Afinal, que língua estamos falando? O português utilizado actualmente no discurso político e nos meios de comunicação é cada vez mais parecido com a novilíngua descrita no romance 1984 de George Orwell. Neste romance, um poder de carácter totalitário inventa uma língua e um vocabulário que têm como principal função deturpar todos os conceitos e confundir continuamente verdade e mentira. Pois bem, o novo acordo ortográfico é coisa miúda, quase insignificante, comparada com esta nova e radical transformação que está a viver hoje a língua portuguesa e que vai dar lugar talvez a uma nova língua: o noviportuguês.

Sem comentários: