terça-feira, 8 de março de 2011

A ameaça do amigo exterior

Ao longo dos séculos, todos os governantes tirânicos perceberam a grande utilidade, ou mesmo a necessidade, do país ter um inimigo exterior. Enquanto a nação inteira está submersa numa guerra patriótica e permanente contra um inimigo exterior qualquer, ninguém consegue dar atenção àquilo que acontece dentro das fronteiras, isto é, à progressiva apropriação do país por parte da oligarquia governante.

Todos nos lembramos, por exemplo, dos sucessivos inimigos exteriores criados pelo ocidente nas últimas décadas. Nos princípios do século passado os inimigos exteriores do ocidente eram judeus e socialistas. Depois os inimigos passaram a ser os nazis alemães, antigos aliados do ocidente na luta contra judeus e socialistas. Depois passaram a ser os comunistas russos, antigos aliados na luta contra os nazis alemães. E ultimamente, à falta de comunistas russos, foi preciso inventar outro inimigo: os terroristas muçulmanos, que eram… claro, antigos aliados de ocidente na luta contra os comunistas russos. E ainda houve, pelo meio, para quem se lembre, a ameaça amarela chinesa ou mesmo a ameaça extraterrestre.

Mas agora, em Portugal e outros países ocidentais, fartos talvez de tanto inimigo exterior, foi inventada uma ameaça muito mais inovadora e sofisticada: a ameaça do amigo exterior. A luta patriótica não é já travada contra um inimigo real ou fictício, senão contra um amigo. E este amigo exterior não é outro, claro, que os chamados mercados internacionais. Os mercados internacionais são, evidentemente, os nossos amigos, pois são eles que generosamente nos emprestam dinheiro para podermos continuar a viver comodamente, mantendo por mais uns tempos o nosso ruinoso modelo económico, um modelo que se afunda cada vez mais a cada momento.

Mas, sendo os nossos amigos, convém no entanto tratar de não despertar a sua ira ou desconfiança, pois em tal caso poderiam subir-nos os juros dos empréstimos que nos concedem. Toda a política nacional deve, portanto, subordinar-se a este princípio fundamental, a esta ameaça. E qualquer vestígio de soberania ou independência nacional deve ser completamente esquecido. Isto ficou bem claro quando um determinado candidato presidencial disse que a realização duma segunda volta eleitoral podia incomodar aos mercados internacionais. Ou quando foi imposto aos portugueses um orçamento de estado recessivo e retrógrado em nome da vontade dos referidos mercados. Ou cada vez que o actual governo aplica novas medidas, cada vez mais antidemocráticas, justificadas em todo o momento pelas demandas incontornáveis dos mercados internacionais.

Mas curiosamente, mesmo fazendo tudo o que os mercados querem, isto é, tomando todo o tipo de políticas contrárias à vontade e às necessidades dos portugueses, os juros da dívida não cessam de aumentar. Claro que isto é perfeitamente normal, pois a lógica dos mercados é unicamente a especulação e o lucro. E, ao contrário do que tanto se diz, não basta ter uma economia ou umas finanças sólidas para um país não ser vítima da especulação. Se tem oportunidade para isso, um especulador actuará contra qualquer país, independentemente da sua situação económica. Basta que um país seja assinalado pelo mundo financeiro como a próxima vítima a abater para que, à continuação, esse país seja logo vítima da mais selvagem especulação.

A solução, pois, não é tentar contentar a vontade destes nossos amigos exteriores, nem ceder às suas contínuas e intermináveis chantagens. A solução é, necessariamente, deixar de ter esse tipo de amizades. E também deixar de ter um governo europeu que obriga os seus estados membros, quer queiram quer não, a manter e aprofundar essas amizades, mesmo até a morte.

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