terça-feira, 14 de setembro de 2010

Condenar à morte com a ajuda do clima

No passado mês de dezembro, na Cimeira de Copenhaga, os mais altos governantes do mundo decidiram que o mundo podia continuar a ser destruído alegremente, tal como tem sido feito até agora. Ficou bem patente que, nos seus escuros raciocínios, existe a profunda convicção de que nada pode travar, nem sequer questionar, o actual modelo político, social ou económico. E muito menos ainda, a cada vez mais notória evidência do carácter destrutivo e suicida deste modelo.

Assim, o mundo deverá continuar obedecendo a um modelo baseado no eterno crescimento económico num planeta que tem recursos limitados; a um modelo que, olhando só para o lucro imediato, sobre-explora e destrói as fontes do próprio rendimento; a um modelo que acha que a natureza, longe de ser o sustento de toda forma de vida, incluindo a nossa, não passa de ser um cenário lindo e colorido perfeitamente prescindível; a um modelo que acha que os seres humanos podem viver sem água, sem ar, sem alimento, sem terra, sem saúde… só com dinheiro.

Poucos meses passados desde o fracasso da Cimeira de Copenhaga, novos fenómenos meteorológicos extremos, aqueles que se pretendia evitar, continuam a multiplicar-se por toda parte: inundações, secas, vagas de calor, furacões, degelos…

Pode pensar-se que todos eles são uma simples coincidência, que fenómenos extremos como estes sempre existiram e sempre existirão. Este último facto é verdade. Mas uma coisa também é certa: já é impossível negar que o crescente número com que acontecem, a sua frequência e a sua intensidade não respondem claramente a uma progressiva mudança do clima. Na realidade, o presente ano de 2010 poderá ser o primeiro ou segundo ano mais quente de toda a história, pois, na sua primeira metade, as temperaturas mundiais foram as mais altas de sempre. No mês de junho a temperatura média mundial chegou a 16,2 ºC, sendo a média desse mês, durante o século XX, de 15,5 ºC.

Pode também pensar-se que esta repentina mudança do clima é puramente natural, que não é devida ao homem nem ao aumento das emissões de gases com efeito estufa. Mas esta forma de pensar é pouco honesta e muito pouco científica. A concentração atmosférica de CO2, um dos principais gases com efeito estufa, atingiu neste momento valores de 387 ppm, quando nos últimos 800 mil anos esteve sempre com valores entre 200 e 300 ppm. E é fácil comprovar como a sua recente subida reflecte o aumento histórico no consumo de combustíveis fósseis, não deixando dúvidas sobre a sua origem.

Assim, por muito cepticismo que se queira manter entre as causas do problema (causas antropogénicas e/ou naturais) e os efeitos (alteração do clima), o certo é que não existe dúvida num aspecto: o homem alterou profundamente um dos elementos chave que governam o clima. E agora, vendo as terríveis consequências da alteração do clima, consequências devidas –em maior ou menor medida– às emissões de CO2 e outros gases, não parece terrivelmente insensato continuar sem nada fazer? E muito pior, não é terrivelmente insensato continuar a agravar a situação, tal como acontece agora?

Entretanto, as vítimas – possíveis, prováveis ou simplesmente inevitáveis– da estupidez dos governantes mundiais e da indiferença dos povos do mundo continuaram a aumentar durante 2010, com fenómenos atmosféricos violentos cuja magnitude bateu quase sempre todos os registos históricos:


Inundações no Paquistão com 1.600 mortos e 20 milhões de afectados; na China, com várias centenas de mortos e mais de 2,6 milhões de afectados; na Índia, com 150 mortos e 500 desaparecidos; na França e na Europa central, com 41 mortos; no Brasil (Alagoas e Pernambuco), com mais de 40 mortos, 600 desaparecidos e mais de 100 mil afectados; noutros países da América Central e do Sul: Colômbia, Uruguai e Honduras; na África: Ghana, com mais de 11 mortos, e Togo. Vagas de calor e seca na Rússia, com mais de 28.000 incêndios que provocaram 52 mortos, 3.500 afectados, 2.500 casas destruídas, mais de um milhão de hectares ardidos e enormes perdas na produção de cereais; em Portugal, com 106 mil hectares ardidos, 1 % do território nacional, em mais de 18.000 incêndios e 3 mortos; na América do Sul: Bolívia, com 20.000 famílias afectadas, Venezuela, com mais de 550 incêndios florestais, e Peru; na América Central e do Norte, com nove mortes em EUA; na China, com 51 milhões de afectados, e Laos; na África. Vagas de frio e neve na Europa; na China; na América do Norte; na América do Sul, com mais de 40 mortos na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia…

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