quinta-feira, 15 de julho de 2010

Máquinas à solta nas áreas protegidas

Este ano o Sata Rallye Açores vai passar novamente pelas Áreas Protegidas da Tronqueira e do Planalto dos Graminhais, tal como em anos anteriores (ver). Como é bem sabido, esta zona oriental da ilha de São Miguel é precisamente o único lugar do mundo onde vive o priôlo (Pyrrhula murina), ave endémica desta ilha e que se encontra entre as espécies mais ameaçadas do planeta. E outra vez, tal como em anos anteriores, o rallye vai passar nesta zona durante a época de reprodução desta ave açoriana única (a época de reprodução decorre de meados de junho ao fim de agosto).

No seu dia, os governantes açorianos pareceram demonstrar uma grande consciência ambiental ao criar as referidas Áreas Protegidas da Tronqueira e dos Graminhais, nascidas sem dúvida com o nobre propósito de preservar a laurissilva original da ilha e o habitat necessário para a sobrevivência do priôlo. Mas curiosamente, na altura do ano em que os rallyes aparecem no calendário, todos esses nobres e louváveis propósitos parecem ficar bem atrás nas suas cabeças pensantes. Sim, a laurissilva e o priôlo são sem dúvida símbolos de excelência do património natural dos Açores –parecem pensar–, mas não são nada que se compare, na realidade, a um bom espectáculo de rallyes com montes de carros barulhentos a percorrer a alta velocidade a ilha, e tudo isso bem regado com uma boa e abundante dose de cerveja para acompanhar o evento.

É nesta triste perspectiva que o rallye Sata Rallye Açores, um evento financiado por entidades públicas, acaba por conseguir, uma vez e outra, as licenças necessárias para passar por quaisquer áreas protegidas, mesmo nas épocas mais perniciosas. Afinal, contra mais protegida e mais natural é a zona percorrida pelo rallye, maior e mais vistoso é o espectáculo.

Mas será que para isto era preciso dar-se ao trabalho de declarar a Serra da Tronqueira como área legalmente protegida? Será que este e outros rallyes tem de passar necessariamente pelas zonas protegidas da ilha? Não há mais caminhos disponíveis? Será que, sendo assim, tem de passar precisamente na época de reprodução duma espécie tão ameaçada? Será que a necessidade de espectáculo do rallye é mais importante que a preservação das espécies nativas açorianas? Será que é ainda necessário gastar tanto dinheiro público para realizar este tipo de eventos? E será que, afinal, há alguma coisa na cabeça dos nossos governantes?

O priôlo, a flora nativa e, em geral, a natureza das ilhas estão ainda muito longe de ser vistos com orgulho pelo povo açoriano e de ser contemplados como uma parte substancial do seu património e da sua essência cultural e afectiva. Nesta necessária tarefa de sensibilização e de enriquecimento cultural, os governantes deveriam dar sempre o exemplo. Mas não é isto que acontece… Perguntem aos priôlos!

© DMS. Ambiente Insular. 2005.
http://www.ambienteinsular.uac.pt


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