sexta-feira, 21 de maio de 2010

Prémios ao esbanjamento

Recentemente um grupo pro-taurino terceirense, a Tertúlia Tauromáquica, recebeu em Madrid um prémio concedido por um associação pro-taurina espanhola, a denominada “Asociación Taurina Parlamentaria”. Esta é uma associação formada por antigos parlamentares espanhóis, todos eles representantes dos partidos mais à direita desse país e grandes defensores da sua herança mais casposa. Mas, certamente, podemos perguntar-nos como é que um grupo espanhol com estas características chegou a lembrar-se da existência dos Açores, conseguiu localizar o arquipélago no mapa e decidiu logo que devia dar um prémio a um grupo pro-taurino duma destas ilhas.

A resposta é bastante fácil se observarmos com atenção o orçamento da feira taurina das Sanjoaninas do passado ano. Nessa ocasião foram pagos 60 mil euros ao toureiro espanhol “El Juli”, naquilo que foi a contratação de valor mais elevado de todas as festas Sanjoaninas. Um bom dinheiro que saiu dos Açores e foi parar directamente à industria tauromáquica espanhola. Afinal, para os espanhóis o prémio era um assunto de obrigada cortesia, envolvendo avultados negócios, que não podiam permitir-se esquecer.

Mas os gastos com as contratações nacionais de toureiros, touros e cavalos de lide não ficaram nada atrás, ascendendo no total a perto de 200 mil euros. Por estas e por outras razões, não é de estranhar que a Culturangra, empresa municipal organizadora das festas, se arraste desde há longos anos com graves problemas financeiros.

Já neste ano de 2010, num ano de grandes Programas de Estabilidade e Crescimento, num ano de severos Planos de Austeridade, a situação de esbanjamento das festas vai repetir-se mais uma vez. A feira tauromáquica vai ser outra vez a maior despesa de todas as festas Sanjoaninas. Com um orçamento de 381 mil euros, a feira representa um terço do orçamento total das festas deste ano. Mas o pior é que já está previsto que esta feira tenha um prejuízo na ordem dos 150 mil euros. Será portanto o maior buraco negro existente nas contas das festas.

No entanto, no arrastar desta situação ruinosa, a Culturangra decidiu fazer agora alguns cortes nas suas despesas. Mas infelizmente não foi naquilo que dá mais prejuízo, senão numa outra coisa qualquer. Foi assim que decidiu suspender a celebração do festival de música Angra Rock. O orçamento total para este festival era de 100 mil euros, isto é, uma quantidade muito menor que o prejuízo previsto para a feira tauromáquica.

Esta persistência da câmara de Angra do Heroísmo em manter a feira tauromáquica no lugar mais destacado das festas, contra todo o rigor orçamental e contra toda a racionalidade na gestão dos dinheiros públicos, merece sem dúvida grandes prémios internacionais. Mas, evidentemente, pelas piores razões.

Muito mais sensatas parecem as declarações do presidente da câmara da Praia da Vitoria, que afirmou que a corrida taurina incluída nas festas desse concelho poderá deixar de existir se continuar a dar elevados prejuízos, tal como aconteceu nos anos anteriores. Segundo as suas palavras, “é algo que tem de se pagar”. Um argumento simples e contundente.

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