quinta-feira, 6 de maio de 2010

A banca ganha

No jogo da roleta, quando a bola cai no zero é a banca que ganha. É por isso que, se jogamos cem vezes seguidas e em todas elas sai o zero, podemos ter a certeza de que a roleta está viciada. De forma surpreendente, quando analisamos o que acontece na economia portuguesa, observamos a mesma situação: a banca sempre ganha. Será, portanto, que também aqui o jogo está viciado?

A banca, com crise económica ou sem ela, demonstra ter sempre lucros fabulosos. No ano 2009, durante o pior da crise, os cinco principais bancos portugueses tiveram lucros superiores a 5 milhões de euros por dia. Significará isto que os banqueiros são muito bons a fazer negócios?

Na realidade, isto parece pouco provável. Olhando para os tribunais, vemos cada vez mais provas de que, no mundo da banca, são frequentes a gestão danosa, a fraude e a corrupção. Muitos banqueiros revelam ainda uma grande ineptidão, empreendendo aventuras financeiras capazes de levar os seus bancos à falência.

Então, a que é devida esta extraordinária capacidade da banca para ganhar dinheiro? Para perceber onde está o truque talvez seja esclarecedor analisar a política seguida pelos governos portugueses dos últimas décadas.

Qual foi, por exemplo, a política de habitação seguida por estes governos? Consistiu em criar ou reabilitar habitação para depois vendê-la a um preço justo e vantajoso? Não. De forma maioritária, limitou-se a ajudar no pagamento dos empréstimos à habitação. Para pagar os preços exorbitantes a que compram a sua casa, as pessoas têm necessariamente de pedir um empréstimo à banca. E o governo ajuda unicamente descontando uma parte nos impostos. Mas claro está que os bancos, sabendo isto, sobem o preço do empréstimo numa quantidade equivalente. O resultado é que, de forma indirecta, o dinheiro passa do estado à banca.

Qual foi, por exemplo, a política seguida nas reformas e pensões? Consistiu em aumentar aos reformados o montante das suas pensões? Não, todo o contrário. Consistiu em mantê-las quase no mesmo nível de miséria. Se alguém quer passar os últimos anos da sua vida duma forma digna deve necessariamente pagar uma outra reforma, isto é, deve contrair com a banca um Plano de Poupança-Reforma (PPR). O governo ajuda as pessoas nesta reforma suplementar permitindo descontar uma parte nos impostos. A mesma quantidade que a banca, ciente disso, pode subir logo no preço dos PPR. Mais uma vez, dinheiro que passa do estado à banca.

Até na política ambiental, nas energias renováveis, a prática do governo é a mesma. Na compra de painéis solares, a política aplicada pelo governo consiste em descontar dinheiro dos impostos àquelas pessoas que pedem um empréstimo ao banco para comprar estes painéis. E ainda temos a caricata Conta Poupança-Futuro, que consiste na oferta, por parte do estado, de 200 euros a cada pessoa que nasce. Mas é um dinheiro que deve ficar no mínimo durante 18 anos num banco! O resultado é sempre o mesmo: dinheiro público continuamente canalizado para a banca!

Mas a banca ainda é financiada directamente pelo estado, quando reduz a uns 15% o IRC que esta paga. Ou quando são retirados os impostos às mais-valias financeiras geradas na bolsa. Assim, pode alguém ficar admirado dos lucros fabulosos da banca?

Mas, mesmo nestas condições, alguns banqueiros já conseguiram levar os seus bancos à falência. E para solucionar esse problema está outra vez o dinheiro público. Só no BPN, o estado português já gastou 4.000 milhões de euros. Um bom dinheiro que pouparam os abastados donos deste banco. O mesmo dinheiro, também, cuja reposição é agora exigida outra vez aos portugueses a través dum novo, mais cruel e mais exigente PEC.

Não há dúvida de que os governos do bloco central são o zero viciado da grande roleta da banca.

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