terça-feira, 20 de abril de 2010

Incultura universitária

Algo de mau acontece na Universidade dos Açores. Muitos são os problemas preocupantes que enfrenta o ensino público universitário: a deficiente formação com que chegam os alunos, o cada vez menor financiamento estatal das universidades, a degradação dos cursos como consequência do chamado “Processo de Bolonha”, a crescente lógica de privatização dos seus serviços…

Actualmente, as universidades públicas cumprem cada vez menos o seu papel de ser os transmissores da ciência e da cultura à sociedade. Segundo o novo paradigma adoptado pelos decisores políticos, o papel das universidades públicas consiste em transformar-se em organismos que, governados por uma gestão empresarial, sejam capazes de dar lucro e de manter-se economicamente eles próprios. Neste novo paradigma, a ciência e a cultura universitárias passam a ser um simples produto comercial no “mercado” do conhecimento.

Mas pior ainda são os sinais de degradação ética que a próprias universidades transmitem à sociedade. Alguns destes sinais tem-se manifestado ultimamente na Universidade dos Açores. O mais recente e vergonhoso é a celebração duma “Garraiada” em Ponta Delgada organizada pela Associação Académica da Universidade dos Açores.

Não bastava já manter as recentemente organizadas no pólo de Angra. Agora também vão ser realizadas em Ponta Delgada. Os animais, três vacas e um touro, vão ser trazidos expressamente da ilha de Terceira para servir de “diversão” aos estudantes. Para a dita associação organizadora, acossar um animal, puxar-lhe da cauda, bater-lhe, empurrar-lhe são coisas divertidíssimas que fazem rir a toda a gente.

Custa acreditar que pessoas universitárias pensem assim, que achem “graça” a maltratar animais. Mas tudo isto é lógico se atendemos à evolução das associações de estudantes nos últimos anos. Antigamente, os estudantes promoviam actos culturais, desportivos, formativos, ou ainda de solidariedade, entre os seus associados. Tristemente, nos últimos anos, a sua função parece resumir-se a organizar grandes bebedeiras. Misturar agora grandes doses de álcool com a prática de violência contra animais parece ser um novo e inevitável patamar neste progressivo caminho de degradação moral.

Mas, quanto custam os animais que vão ser utilizados? Quanto custa o transporte dos animais até São Miguel? Quanto custa o aluguer do local? Quanto custa a organização? Como é possível que, num momento de grandes dificuldades financeiras, sobre agora tanto dinheiro para uma simples “diversão” de maus estudantes universitários? E de quem partiu esta “brilhante” ideia?

Não há dúvida de que por trás deste acto vergonhoso estão os interesses económicos da indústria das touradas, cada vez mais desesperada por justificar a grande quantidade de dinheiros públicos que a sustenta. Uma indústria que nos últimos anos, aproveitando qualquer oportunidade, anda a tentar expandir a São Miguel as suas actividades. E todo isto com a grande cumplicidade de governos regionais e autárquicos. E, claro, com o generoso dinheiro de todos os açorianos, gostem ou não de touradas. Entre os vários patrocínios anunciados nesta “festa” do maltrato animal podemos ver a Câmara Municipal de Angra, a Câmara Municipal de Ponta Delgada, o Governo dos Açores e, claro, a Universidade dos Açores.

Alexandre Herculano referia-se às touradas como um: "espectáculo de eras bárbaras, que a civilização, desenvolvendo-se gradualmente por alguns séculos, ainda não soube desterrar da Península, e que nos conserva na fronte o estigma dos bárbaros, embora tenhamos procurado esconder esse estigma debaixo dos ouropéis e pompas da arte moderna e pleitear a nossa vergonhosa causa perante o tribunal da opinião da Europa com sofismas pueris e ineptos."

Os estudantes da Associação Académica seguramente não devem saber quem é Alexandre Herculano. Mas ele de certeza ficaria surpreendido de ver que, no nosso país moderno, avançado e desenvolvido, no nosso país do século XXI, até a incultura e a barbárie são ensinadas nas universidades.

2 comentários:

Anónimo disse...

Essa Associação Académica é um filme de comédia.
Quando é que o presidente vai outravez à televisão falar? Curto-o bué!

Dog's Life disse...

Óptimo BLOG!

Penso que Os Verdes já deveriam ter assumido um posicionamento firme e coerente sobre esta questão, a TAUROMAQUIA, sem constrangimentos.

Por que a imagem política do nosso partido, que prima pelos valores éticos e morais em Portugal, não poderá depender de populismos, perante este aspecto retrógrado e cultural de nossa sociedade.

Uma tal noção não pode ser defendida por um partido AMBIENTALISTA, Partido Ecologista - Os Verdes.

Indaguei a um colega, recentemente, também membro do C. Nacional, qual era o posicionamento actual do nosso partido em relação à TAUROMAQUIA, e não me soube esclarecer a questão, "dado ser um tema muito controverso, e que suscitava no partido opiniões disputadas."

Gostaria de manifestar aqui o meu veemente repúdio a esta absurda omissão prática mantida pelo meu partido. Não posso aprovar nem permitir factualmente que atitudes fora do espectro de princípios que alicerçam um VERDADEIRO partido AMBIENTALISTA, sirvam como modelos estratégicos de projecção política. Não sou membro de uma empresa de Marketing, mas sim de um Partido - Os Verdes, AMBIENTALISTA. Ser VERDE, ao meu ver, transcende a questões de direita ou de esquerda. Como AMBIENTALISTA não coaduno com posicionamentos antropocêntricos prevalentes em regimes Marxistas, em que o homem é possuidor e controlador do "bem comum". Nem tão pouco endossarei grupos políticos que herdaram o conceito milenar, Criacionista, pelo que Deus terá desenvolvido o universo para bel usufruto das gerações humanas.

O homem é parte integrante do Meio-Ambiente. Sua existência NÃO é factor essencial à conservação da ecologia em nosso planeta. Ao lado de tantas espécies que tiveram a sua extinção motivada ou determinada pelas actividades antropogénicas, somos tão somente 1 única espécie animal, neste complexo BIOMA.

É preciso enfatizar este conceito, por mais impopular que pareça ser, pois como ele outros tantos terão que ser superados e desmascardos nas sociedades actuais.

A igualdade de direitos não deverá mais ser partidariamente enfocada sobre contextos preponderantemente antropocêntricos, pois isto somente nos posiciona ao lado de outros partidos comprometidos com a pesada e profunda pegada humana.

A fim de que nosso nicho VERDE seja politicamente preservado e não diluído em tintas de outro matiz, é mandatório que desempenhemos um papel coerente no contexto ambiental nacionalmente, assumindo posições claras e não dúbias
sobre aspectos tais como a TAUROMAQUIA.

Como seres conscientes de suas acções, deveremos intelectualmente zelar pela máxima neutralidade na manutenção da órdem ecológica em nosso planeta.

É plausível neste contexto, que viabilizemos a nossa sobrevivência como espécie, segundo uma perspectiva compatível com os níveis de conhecimento, no século 21, no que toca à larga gama de aspectos de sustentabilidade nas relações que suportam a nossa existência, circunscrita à manutenção de um vasto conjunto de factores ambientais, tais como: a biodiversidade, a integridade do património natural e paisagístico, a preservação dos elementos bióticos e abióticos, o reconhecimento do direito que outras espécies têm de viver condignamente, sem serem estigmatizadas e submetidas para o prazer intelectual de seres humanos.

Mantive-me até ao presente momento no Partido Ecologista - Os Verdes, por uma questão de princípios morais e de cidadania. O dia que não puder mais ver reflectida a minha consciência no cromatismo de posicionamentos partidários, em consistência com os mais actuais e modernos paradigmas socio-culturais, que deverão sustentar o nosso planeta futuramente, terá deixado de haver então as prerrogativas para a manutenção deste nosso elo.