terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A arte da tortura

Foi apresentada na Assembleia Regional uma proposta de decreto legislativo que pretende dar um novo regulamento às corridas de touros. Os proponentes, com toda a legitimidade, podiam ter chamado à sua proposta “regulamento da tortura animal”, ou “das touradas sangrentas”, ou “do sadismo bárbaro com touros”… Mas não. Acabaram por chamá-lo “Regulamento geral dos espectáculos tauromáquicos de natureza artística”. Sim, natureza artística. Não é engano.

De forma bastante inteligente, os proponentes perceberam que sempre fica melhor falar de arte que falar de tortura, de sangue ou de sadismo. É que a tortura e a violência gratuita para diversão popular já não são tão bem aceites pela sociedade do século XXI como eram dantes. Desta forma, mudando os nomes e tentando fazer passar uma coisa por outra, os proponentes (a partir do governo regional) demostraram bem claramente que tinham qualquer coisa de que envergonhar-se.

O texto desta proposta de regulamento (ler texto completo) surpreende pela sua minúcia. Determina com exactidão quantos minutos o touro pode ser burlado, espetado, encurralado, o número de vacas necessário para recolher o touro, se o touro deve ser ou não cego, se deve sofrer ou não de criptorquidia, o comprimento certo das bandarilhas (com 8 cm para espetar no animal)… Com o seu refinado sadismo, esta proposta de regulamento lembra muito aqueles manuais de tortura utilizados pelo antigo Tribunal da Santa Inquisição.

A proposta de regulamento também põe ao lume alguns novos tachos. Pretende criar uma “Comissão Regional de Tauromaquia”, de 15 membros, composta por “artistas” (mais uma vez o arte para disfarçar), ganadeiros, empresários, tertulianos… que se reuniria no menos uma vez por ano, com gastos de deslocação e alojamento pagos. Seria também criado um “Corpo de delegados técnicos tauromáquicos”, composto por “artistas tauromáquicos” e “aficionados meritórios”, que depois poderiam actuar como médicos veterinários (!) nas corridas. Os delegados nomeados para uma corrida ficariam com uma remuneração de mais de 200 euros, para além de transporte, alojamento e ajudas de custo.

Claro que esta proposta também tem os seus momentos divertidos, como a necessária obrigação de “abrilhantar” o espectáculo com uma banda musical, tocando em momentos bem específicos, para além do cornetim. Para grande alegria dos touros, as corridas não poderiam realizar-se durante os dias de eleições e de luto nacional ou regional. E surpreende ainda, pelo seu carácter laico e republicano, a referência a espaços religiosos e a um capelão nas praças de touros.

A volta desta proposta têm-se colocado algumas questões preocupantes.

Primeiro, fala-se nela de “picadores” e de “matadores de toiros”. E também de que a categoria de “matador” só pode obter-se participando em “corridas de touros de morte”. Todo isto contradiz abertamente o assinalado nas leis e ainda a recente decisão da Assembleia Regional de não introduzir as touradas picadas. Parece haver nisto um futuro desejo dos proponentes de alargar a novos patamares as torturas aplicadas aos touros.

Outra questão repetidamente levantada é a necessidade de fazer agora esta proposta de regulamento, quando já há um regulamento a nível nacional. Nisto parece ter grande importância o interesse dos ganadeiros, já que a proposta transfere para o licenciamento municipal alguns espectáculos, permite a lide de touros de menor peso e facilita que as lides possam ocorrer em diferentes ilhas. Segundo o Director Regional de Cultura (sim, cultura!) esta proposta de regulamento cria as “condições para um espectro maior de participação dos ganaderos regionais para fornecimento de reses para serem lidadas em espectáculos taurinos”.

Esta proposta é mais um sintoma da situação cada vez mais agonizante em que se encontra este sector económico, só mantido artificialmente pelos fundos públicos e pela grande generosidade dos governantes regionais e camarários.

Não é, de certeza, com a aprovação deste tipo de regulamentos ridículos que o sector tauromáquico vai sobreviver. As touradas estão a desaparecer progressivamente em todo o mundo devido a um processo de avanço civilizacional. Para o mundo das touradas impõe-se forçosamente a reconversão. Mas, em vez disso, o sector parece querer fugir para diante e apresenta todo tipo de propostas absurdas, teimosas e de carácter ainda mais sanguinário que nos envergonham a todos. A lógica frustração destas pessoas parece estar a consumir da pior maneira o seu sentido da realidade.

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