segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Novo livro sobre a Flora dos Açores

“Mais de dois terços da flora indígena açoriana, um património natural único dos Açores, corre sérios riscos de desaparecimento.”


Silva L, M Martins, G Maciel, M Moura. 2009.
Flora vascular dos Açores. Prioridades em conservação.
Amigos dos Açores & CCPA, Ponta Delgada.


No novo livro publicado são analisadas as prioridades de conservação de 179 espécies de plantas nativas dos Açores.

Das aproximadamente 947 espécies da flora vascular dos Açores, menos de 300 espécies são nativas, sendo o resto introduzidas. Dentro das espécies que são nativas, 72 são exclusivas dos Açores (endémicas), não existindo em nenhum outro lugar do mundo. Infelizmente, 52 destas plantas encontram-se seriamente ameaçadas.

O livro lembra o seguinte: “Os serviços ecossistémicos prestados pela biosfera incluem a manutenção dos elementos necessários à vida e bem-estar, alimentos, medicamentos, água e oxigénio. E, realmente, existe um limite para a capacidade de substituição, pelo engenho humano e pela tecnologia, desses serviços naturais, pelo que são de extremo valor.”

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Promover a incultura

As touradas à corda têm sido, nos últimos anos, um negócio florescente. Das 183 touradas à corda realizadas na ilha Terceira em 1996 passou-se às 268 realizadas no ano passado (um aumento de quase metade), sempre com apoios públicos. Mas os tempos agora são de crise e, no presente ano, o número de touradas realizadas diminuiu um pouco, com a realização de só 246 touradas à corda.

Qual é, portanto, a solução para assegurar que o negócio continue a crescer como até agora? A solução é, claro, ter grandes amigos nas câmaras municipais das outras ilhas. Se não se conseguem fazer mais touradas na Terceira, fazem-se numas outras ilhas quaisquer, não importa (para isto já não importa) se nessas ilhas existe ou não tradição nesta matéria. E na ilha de São Miguel parece haver, sem dúvida, grandes amigos. Há, por exemplo, no concelho da Lagoa, onde recentemente se realizou uma nova tourada (vacada para ser mais exactos), por ocasião das festas de São Martinho.

Se uma tourada à corda custa entre 750 e 3.500 € (mais licenças), some-se a isto o transporte do gado desde a Terceira a São Miguel, some-se também a isto a viagem desde a Terceira dos macacos que fazem graçolas à frente dos animais, multiplique-se todo isto pelo número de touradas à corda realizadas no presente ano no concelho e obter-se-á, afinal, um valor que revela a grande generosidade económica do concelho da Lagoa e o grande investimento que realiza actualmente na promoção da incultura.

Observando os jogos das crianças é possível saber o grau do seu desenvolvimento psíquico: quando as crianças se reúnem para divertir-se juntas sabemos que têm um desenvolvimento saudável, mas quando se reúnem para divertir-se à custa de outra criança sabemos que o seu desenvolvimento é deficiente. Agora, que podemos dizer, sobre os adultos, vendo as tristes imagens da recente tourada da Lagoa?

http://www.youtube.com/watch?v=rbDsPiTYbt4

Acossar um animal confuso e desorientado é divertido? É divertido puxar-lhe a cauda? É divertido enganá-lo com uns trapos para que bata de cabeça contra um tonel? É isto cultura? E ainda: pode uma instituição pública, como uma câmara municipal, incentivar e promover com dinheiros públicos este tipo de comportamentos? Pode um governo regional permiti-lo?

Hoje a diversão é à custa dum animal, mas amanhã pode ser à custa do idiota da aldeia ou de uma outra pessoa qualquer, desde que assegure a diversão necessária. É este tipo de espectáculos que queremos ver no futuro?

Quando a barbárie e a corrupção não são detidas a tempo acabam por alastrar e estender-se sem remédio. Parece já hora, por tanto, de acabar com a realização destes degradantes espectáculos em todas as ilhas!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pesca devastadora e insustentável

A pesca é o único recurso alimentar em que o homem continua a ser predador da natureza. Nas últimas décadas, a progressiva substituição das artes de pesca artesanais por modos de exploração industriais, de carácter claramente irracional, tem levado à sobreexploração dos valiosos recursos pesqueiros. Actualmente, a sobrepesca está a esgotar ou acabar com as reservas de peixe mundiais, ameaçando a sobrevivência das espécies marinhas, mas também da própria actividade piscatória tradicional que dela depende. Calcula-se que 75% das reservas mundiais de peixe estão totalmente exploradas, sobreexploradas ou mesmo esgotadas. E nas águas comunitárias este valor chega a 88%. Assim, o futuro dos mares e da pesca está em jogo e dependerá das medidas legais que venham a ser agora adoptadas.

Grande parte da destruição das reservas é devida a utilização de técnicas de pesca destrutivas, como as redes de arrasto utilizadas no fundo oceânico. Em 2006 uma moratória sobre a pesca de arrasto em águas internacionais foi apresentada nas Nações Unidas, que ditou a Resolução 61/105. Sobre este problema, pode ver-se o vídeo “O fundo da linha”, com apresentação de Sigourney Weaver (duração: 10 minutos) em:

http://www.greenpeace.org/portugal/videos/o-fundo-da-linha

Um outro documentário sobre a sobrepesca, “The end of the line”, foi recentemente apresentado. Podem ver-se excertos em: http://www.babelgum.com/endoftheline

Recomenda-se a visita das páginas da Greenpeace Portugal e da Plataforma PONG-Pesca:

http://www.greenpeace.org/portugal/
http://pongpesca.wordpress.com/

A Greenpeace Portugal iniciou uma campanha para alertar sobre a comercialização em Portugal de espécies de peixe que provêm de técnicas de pesca ou de viveiros insustentáveis. Esta campanha tenta sensibilizar os consumidores e os retalhistas para evitar este comércio, que leva à destruição das espécies e das reservas de pesca.

Foi ainda elaborada uma Lista Vermelha de espécies cuja venda está relacionada com a sobrepesca ou com técnicas de pesca insustentáveis. O consumo destas espécies coloca em sério perigo a sobrevivência destas espécies, a renovação das reservas de pesca ou os próprios ecossistemas marinhos.

A Lista Vermelha inclui as seguintes espécies:

-Alabote, Alabote da Gronelândia, Linguado europeu e Solha americana (Hippoglossus hippoglossus, Reinhardtius hippoglossoides, Solea solea, Hippoglossoides platessoides)
-Atuns (Thunnus obesus, T. thynnus, T. albacares, T. alalunga)
-Bacalhau do Atlântico (Gadus morhua)
-Espadarte (Xiphias gladius)
-Peixe espada branco (Lepidopus caudatus)
-Peixes vermelhos (Sebastes marinus, S. mentella, S. fasciatus)
-Pescadas (Merluccius merluccius, M. australis, M. hubbsi, M. capensis, M. paradoxus)
-Salmão (Salmo salar)
-Tamboris (Lophius americanus, L. piscatorius, L. budegassa)
-Raias (Dipturus batis, Dipturus laevis, Rostroraja alba, Atlantoraja castelnaui, Leucoraja melitensis)
-Tubarões (Galeorhinus galeus, Squalus acanthias, Prionace glauca, Isurus oxyrhinchus)
-Camarões (Litopenaeus vannamei, Metapenaeus monoceros, Parapenaeus longirostris, Penaeus monodon)

sábado, 7 de novembro de 2009

Golpe de estado na Europa

Quando acontece um golpe de estado num país qualquer, uma das primeiras medidas tomadas pelos golpistas costuma ser a anulação da Constituição do país. O regime legal existente é derrogado e substituído pelas exigências dos golpistas, impostas logo pela força das armas. Mas Europa é… diferente. O continente europeu é um lugar altamente requintado onde as coisas acontecem duma outra forma, sempre muito mais civilizada e cerimoniosa. Quando na Europa é dado um golpe de estado, os golpistas não derrogam a Constituição. Pelo contrário: impõem-na pela força.

Podemos ver isto com o chamado Tratado de Lisboa. Há uns anos os governantes europeus, todos eles muito liberais, levantaram-se com vontade de dar um novo golpe e de impor aos cidadãos europeus uma maior subserviência com respeito ao poder económico. Poderiam ter utilizado as armas para impor novamente a sua vontade, mas certamente isto teria sido pouco elegante. Em vez disso, decidiram impor aos europeus a chamada Constituição Europeia, um texto de carácter ainda mais neoliberal e retrógrado. E, respeitando a tradição e os bons costumes, submeteram esta Constituição a referendo nos diferentes países.

Mas, por um motivo qualquer, alguma coisa saiu mal. A França e a Holanda rejeitaram a Constituição em referendo. Foi um pequeno contratempo, mas nada que não se resolvesse facilmente. Bastou mudar o nome à Constituição e ignorar, mais uma vez, a vontade do povo. O texto chamar-se-ia agora Tratado de Lisboa. E todos os golpistas concordaram em que, para evitar mais problemas, era melhor não fazer mais referendos com este novo tratado. Portugal, por exemplo, que até havia modificado a sua Constituição nacional para poder fazer o referendo, renunciou a fazê-lo.

Mas esqueceram-se da Irlanda, cujo povo votou também contra. Novo contratempo. Como já não dava para mudar outra vez o nome do Tratado, os golpistas decidiram repetir uma outra vez o referendo na Irlanda. O povo é soberano, mas, como sabemos, para demonstrar que realmente o é, deve votar aquilo que lhe é ordenado.

Sob uma forte e persistente chantagem, e com a falsa oferta de alguns rebuçados, desta vez os irlandeses votaram aquilo que deviam votar. Até que enfim! E mesmo os checos, com os seus interesseiros jogos políticos, também concordaram. Finalmente Europa poderá ter um texto constitucional que adopta uns princípios que tão bons resultados deram para conduzir a Europa à crise. Nele adopta-se, por exemplo, a consagração do comércio livre, a criação duma economia altamente competitiva e de escala mundial, a liberalização dos serviços, uma constante expansão do consumo, a liberdade de movimentos de capitais, uma democracia de tipo representativo, a subordinação à NATO em matéria de defesa, etc. Sim, é um verdadeiro golpe de estado. Mas com muito requinte democrático…

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Descanso religioso

Depois do intenso período eleitoral dos últimos meses, a igreja vai poder finalmente ter o seu merecido descanso. Não, não é, certamente, que a igreja se tenha apresentado às eleições. Mas foram muitas as inaugurações oficiais realizadas durante a campanha eleitoral, sempre orientadas a captar o voto dos eleitores mais distraídos: colocação da primeira pedra de uma coisa qualquer, inauguração da primeira fase duma outra coisa qualquer, inauguração da segunda e a terceira fase da mesma coisa dantes… E, claro, nestas inaugurações todas nunca poderia faltar a presença dum padre a aspergir água benta para afugentar os maus espíritos. Agora, passada a frenética época eleitoral, impõe-se para os padres uma época de calma e de repouso.

É certamente curioso ver os padres a lançar água benta na inauguração de qualquer nova construção. Este costume, próprio doutros tempos, é já difícil de presenciar em qualquer país moderno e civilizado. Mas ainda mais curioso é presenciar este espectáculo nas inaugurações oficiais, promovidas pelos governos regional ou municipais, óbvios representantes dum estado português que se define como laico.

Apesar da Constituição portuguesa dizer que “as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado”, o certo é que nos Açores ambas instituições se misturam de uma forma completamente incompreensível. Para além de ser comum a presença da igreja nos actos públicos do estado, é também frequente e visível a participação dos governantes regionais e autárquicos nos actos religiosos.

No mês de Junho, por exemplo, foi possível ouvir um discurso da presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada na inauguração da nova Igreja de Nossa Senhora de Fátima, cuja construção foi promovida pela própria câmara. Não há dúvida de que há muito misticismo no ar dos Açores.

Já no mês de Setembro, foi a vez de ouvir uma breve missa, realizada por um padre autêntico, na inauguração oficial do Expolab, o novo Centro de Ciência construído no concelho da Lagoa. Este novo centro tem como principal objectivo “a divulgação científica no âmbito de temáticas relacionadas com as Ciências Naturais”.


Não deixa de ser estranha a realização duma missa para inaugurar um centro dedicado à ciência. E ainda por cima quando, no mesmo centro, era inaugurada uma exposição sobre a evolução biológica, no âmbito das celebrações do bicentenário de Darwin. A igreja demorou muitos séculos a reconhecer que Galileu não estava enganado. Apenas um século e meio após a publicação das suas ideias, Darwin foi agora benzido, por surpresa, nesta breve cerimónia religiosa realizada na Lagoa. Os Açores passaram assim a ser o primeiro lugar do mundo em que a igreja católica beatificou as teorias do sempre vilipendiado Darwin. Nisto sim, os Açores estão à frente do mundo!

Nota de imprensa da CDU/São Miguel

A Comissão Permanente da CDU/São Miguel analisou a situação decorrente do ciclo eleitoral deste ano e a actual situação política e social em São Miguel, na região e no país.

A CDU considera inadmissível o aumento da pobreza, decorrente em parte dos baixos salários: 55,3% dos trabalhadores açorianos recebem um salário mensal inferior a 600€ e na agricultura e pescas 63,5%. E também do desemprego, que no arquipélago e em particular na ilha de São Miguel aumentou exponencialmente 51,8% comparado com o mesmo mês de 2008.

A CDU/São Miguel manifesta a sua solidariedade para com os professores, atingidos pelas mais diversas injustiças nas escolas da ilha, e com os trabalhadores da ICTS, vítimas um despedimento colectivo ilegal por causa duma greve.

A CDU vai continuar a empenhar-se e a intervir com os trabalhadores, os agricultores, os pescadores e as populações para encontrar as respostas aos seus anseios e aspirações a uma vida melhor.

Ver Nota de imprensa