quinta-feira, 23 de julho de 2009

Touradas: uma máfia de trazer por casa?

Uma organização mafiosa pode ser facilmente reconhecida por uma série de características: um profundo desrespeito pelas leis, negócios escuros envolvendo grandes quantidades de dinheiro, sistemática evasão fiscal, utilização da violência para os seus fins, fortes ligações ao poder político, gosto pelo sangue…

Felizmente nada disto acontece nos Açores… ou será que pode acontecer?

- Recentemente foram realizadas várias touradas à corda na ilha de São Miguel, organizadas pelas câmaras municipais da Ribeira Grande e da Lagoa. Segundo a lei, não podem ser feitas touradas nos lugares em que não há tradição continuada nos últimos 50 anos. Esta tradição nunca existiu na ilha de São Miguel.

- As touradas à corda são uma indústria que dá muito dinheiro (há quem diga que é a maior indústria da Terceira). Mas é um negócio escuro, de carácter informal e difícil de quantificar. “Há espectáculos baratíssimos e há espectáculos que podem ascender a milhares de euros”, refere Duarte Pires, presidente da Associação Regional de Criadores de Touros de Touradas à Corda. Parece que uma tourada à corda pode custar entre 750 e 3.500 euros (mais licenças). Na Terceira decorrem cerca de 300 touradas anualmente, pelo que podemos calcular que as touradas à corda rendem, pelo menos, entre 225.000 e 1.050.000 euros anuais.

- Recentemente a GNR levantou cerca de uma dezena de autos aos proprietários de touros de aluguer para touradas à corda. Os autos foram devidos a infracção tributária por não passarem facturas, cumprindo os termos do código do IVA. Segundo Duarte Pires, “esta exigência é uma novidade surpreendente pelo facto de ser uma actividade com quase cinco séculos na ilha e nunca ninguém tinha levantado o problema”. Pois sim, de facto, é surpreendente que há cinco séculos não existisse o IVA. Mas não há problema: “os custos vão, quase de certeza, inflacionar o preço do aluguer dos touros, que vão ser debitados às comissões de festas”.


- Na tourada à corda realizada no Porto dos Carneiros, na Lagoa, no dia 18 de Julho, um grupo de manifestantes protestou contra a realização da tourada. Estas pessoas, é preciso dizê-lo, mostraram uma grande coragem ao pôr-se a frente dos animais, muitos deles já bêbedos. Os manifestantes foram alvo de agressões verbais e tentativa de agressões físicas. O presidente da câmara justificou a agressão porque “as pessoas têm o direito a indignarem-se”.

- As touradas na ilha de São Miguel foram organizadas pelas câmaras da Lagoa e da Ribeira Grande, e apoiadas sempre pelo Secretário Regional da Agricultura e Florestas e pelo Director Regional do Desenvolvimento Agrário. Os indivíduos que retiraram à força os cartazes aos manifestantes no Porto dos Carneiros eram, segundo informações, funcionários da câmara vestidos à paisana.

- No mês de Maio foi votada na Assembleia Regional uma proposta para legalizar as corridas de touros picadas. A proposta foi rejeitada por pouco: 26 dos 57 deputados votaram a favor. A tortura pública e sanguinária de animais foi considerada por estes 26 deputados como necessária e proveitosa.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Atropelar priôlos como forma de fazer desporto.

É já quase uma tradição que está a impor-se na ilha de São Miguel. Trata-se da priolada, uma forma de fazer desporto com grande número de seguidores e apoiantes, entre os que se contam, em destacado lugar, os governos regionais e municipais da ilha.

Este emocionante desporto consiste em passar de carro, a toda velocidade, pela única área em que vive o priôlo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha de São Miguel e que se encontra entre as espécies mais ameaçadas do planeta. O objectivo dos concorrentes não é claro. Supostamente é fazer o percurso o mais rapidamente possível. Mas tudo indica que, na realidade, o objectivo é expulsar durante uns dias os priôlos do seu habitat da Serra da Tronqueira e talvez impedir a sua reprodução. É possível que atropelar um priôlo chegue a dar mais pontos na classificação geral, mas ninguém sabe ao certo.


Neste magnífico desporto existem no menos duas competições anuais. Uma é o SATA Rallye Açores (que este ano decorreu nos dias 7-9 de Maio) e a outra é o Rallye da Ribeira Grande (que decorreu nos dias 11-12 de Julho). Os dois rallyes, como não podia ser de outra forma, têm sempre um percurso que passa pela Serra da Tronqueira e pelo Planalto dos Graminhais, sempre à procura dos tão ameaçados priôlos. “O rally passa, a paisagem fica” é a frase publicitária, certamente curiosa, utilizada pela Associação de Municípios da Ilha de São Miguel. Pois ficar, fica, mas não se sabe em que estado…

A passagem destes rallyes pela Serra da Tronqueira tem evidentemente impacto sobre a reduzida população de priôlos, especialmente durante a época de reprodução. Esta ocorre de meados de Junho ao fim de Agosto, com a aparição dos primeiros juvenis em meados de Julho. Estas datas coincidem, portanto, com a realização duma das provas.

Não há dúvidas de que o priôlo e o seu habitat constituem um património natural açoriano de valor mundial. No entanto, parece que este valor não tem a mínima importância quando se trata de definir os percursos dos rallyes. Para os organizadores e os governantes da ilha ter um rallye ainda mais espectacular é muito mais importante que proteger uma espécie ameaçada. Segundo eles, os priôlos até devem gostar de assistir a este tipo de espectáculos automobilísticos. Pelo menos, os estrangeiros parecem apreciar esta espécie, que constitui uma atracção turística e recebe importantes fundos internacionais para a sua conservação.

Quando será que os açorianos o os seus governantes vão também importar-se com ela? E até quando assistiremos a esta atitude vergonhosa?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Requiem pela Lagoa das Furnas.

Visitar a lagoa das Furnas, na ilha de São Miguel, deixou de poder ser considerado como turismo de natureza. Na actualidade, deve ser considerado apenas como uma espécie de turismo funerário. À crescente podridão das águas, malcheirosas durante o verão, em toda a sua variada gama de tons amarelo-esverdeados, soma-se a crescente e inexorável artificialização do seu ambiente.

A última coisa que um turista espera encontrar nas até agora belas e nostálgicas margens da lagoa é a presença dum grande estaleiro da construção civil. Mas ele lá está. Também não espera encontrar uma grua a ser utilizada na construção dum prédio. Mas ela lá está. Nem um tipo esquisito de bunker, nem novas condutas eléctricas, nem novas canalizações… Mas todas elas também lá estão!


Como poderá interpretar-se a presença de toda esta frenética actividade construtora? Pois bem, na realidade parece tratar-se da construção do novo “Centro de Interpretação da Lagoa das Furnas”, um empreendimento cientifico-turístico de… bastante difícil interpretação! O conjunto das obras parece que vai incluir vários edifícios com áreas habitáveis, dispondo de todos os requisitos de conforto para estadias frequentes e demoradas; vários edifícios de apoio com instalações sanitárias, arrecadações ou áreas técnicas; dois pequenos edifícios de suporte para equipamentos especiais, áreas de trabalho com gabinetes, salas de reuniões, um pequeno auditório e uma cafetaria; e ainda inclui infra-estruturas hidráulicas, eléctricas, telecomunicações, pavimentação de arruamentos e intervenção paisagística… Sim, tudo isto!

Talvez para –supostamente– interpretar, monitorizar ou investigar a lagoa e o seu ambiente natural seja bom ter alguma proximidade com eles. Mas era talvez necessário colocar-se acima deles? É aceitável a construção de tanto edifício e tanta infra-estrutura na lagoa para depois falar –supostamente– sobre a preservação da lagoa e do seu ambiente natural? E tudo isto num lugar tão afastado da estrada, por onde lógicamente chegam todos os turistas? E num lugar até agora medianamente preservado?

Parece existir a promessa de que toda esta megalómana construção vai ficar muito bem integrada na paisagem. Mas, na verdade, não é isto o que se vê agora. E muito mais integrada estaria se não estivesse num lugar tão pouco adequado. Qual será então o resultado final de tudo isto? Será que realmente vai ficar integrada com a paisagem, aquela coisa que, entretanto, ficou por baixo das fundações? Ou será que vai ficar integrada num novo desenvolvimento urbanístico e turístico daquela zona?

Mas também se fala de construir uma via empedrada, e talvez iluminada, à volta de toda a lagoa. Afinal, toda esta nova e agressiva artificialização é necessária para quê? O objectivo é potenciar o turismo de natureza ou potenciar um absurdo turismo urbano? Se se quer potenciar o turismo de natureza, era melhor conservar, num estado intacto ou pouco alterado, os valores naturais da lagoa, evitando sempre a sua artificialização. Era melhor investir em planos mais eficazes para evitar a crescente eutrofização das águas, impedir novas construções junto a lagoa, integrar na paisagem as já existentes (algumas com cores berrantes), fazer um trilho pedonal junto a estrada no lado nascente, sinalizar bem os trilhos já existentes, regular o acesso dos carros às margens da lagoa, proibir a circulação de motas amantes do ruído e da erosão, retirar as aves exóticas (domésticas) introduzidas, acondicionar melhor as áreas de recreio…

Actualmente, ao visitar a lagoa das Furnas, a inevitável sensação que se tem é que se está a construir uma espécie de túmulo artificial ao redor dumas águas já mortas.