terça-feira, 24 de novembro de 2009

Promover a incultura

As touradas à corda têm sido, nos últimos anos, um negócio florescente. Das 183 touradas à corda realizadas na ilha Terceira em 1996 passou-se às 268 realizadas no ano passado (um aumento de quase metade), sempre com apoios públicos. Mas os tempos agora são de crise e, no presente ano, o número de touradas realizadas diminuiu um pouco, com a realização de só 246 touradas à corda.

Qual é, portanto, a solução para assegurar que o negócio continue a crescer como até agora? A solução é, claro, ter grandes amigos nas câmaras municipais das outras ilhas. Se não se conseguem fazer mais touradas na Terceira, fazem-se numas outras ilhas quaisquer, não importa (para isto já não importa) se nessas ilhas existe ou não tradição nesta matéria. E na ilha de São Miguel parece haver, sem dúvida, grandes amigos. Há, por exemplo, no concelho da Lagoa, onde recentemente se realizou uma nova tourada (vacada para ser mais exactos), por ocasião das festas de São Martinho.

Se uma tourada à corda custa entre 750 e 3.500 € (mais licenças), some-se a isto o transporte do gado desde a Terceira a São Miguel, some-se também a isto a viagem desde a Terceira dos macacos que fazem graçolas à frente dos animais, multiplique-se todo isto pelo número de touradas à corda realizadas no presente ano no concelho e obter-se-á, afinal, um valor que revela a grande generosidade económica do concelho da Lagoa e o grande investimento que realiza actualmente na promoção da incultura.

Observando os jogos das crianças é possível saber o grau do seu desenvolvimento psíquico: quando as crianças se reúnem para divertir-se juntas sabemos que têm um desenvolvimento saudável, mas quando se reúnem para divertir-se à custa de outra criança sabemos que o seu desenvolvimento é deficiente. Agora, que podemos dizer, sobre os adultos, vendo as tristes imagens da recente tourada da Lagoa?

http://www.youtube.com/watch?v=rbDsPiTYbt4

Acossar um animal confuso e desorientado é divertido? É divertido puxar-lhe a cauda? É divertido enganá-lo com uns trapos para que bata de cabeça contra um tonel? É isto cultura? E ainda: pode uma instituição pública, como uma câmara municipal, incentivar e promover com dinheiros públicos este tipo de comportamentos? Pode um governo regional permiti-lo?

Hoje a diversão é à custa dum animal, mas amanhã pode ser à custa do idiota da aldeia ou de uma outra pessoa qualquer, desde que assegure a diversão necessária. É este tipo de espectáculos que queremos ver no futuro?

Quando a barbárie e a corrupção não são detidas a tempo acabam por alastrar e estender-se sem remédio. Parece já hora, por tanto, de acabar com a realização destes degradantes espectáculos em todas as ilhas!

1 comentário:

cristina disse...

Toda a razão, evidentemente. A questão continua a ser a do imediatismo do retorno que impera na política sem visão. É mais fácil comprar pacotes de diversão - e se for à bruta, ainda melhor porque atrai mais povo - do que investir em projectos culturais. O povo embrutecido é mais permeável à manipulação.