sábado, 7 de novembro de 2009

Golpe de estado na Europa

Quando acontece um golpe de estado num país qualquer, uma das primeiras medidas tomadas pelos golpistas costuma ser a anulação da Constituição do país. O regime legal existente é derrogado e substituído pelas exigências dos golpistas, impostas logo pela força das armas. Mas Europa é… diferente. O continente europeu é um lugar altamente requintado onde as coisas acontecem duma outra forma, sempre muito mais civilizada e cerimoniosa. Quando na Europa é dado um golpe de estado, os golpistas não derrogam a Constituição. Pelo contrário: impõem-na pela força.

Podemos ver isto com o chamado Tratado de Lisboa. Há uns anos os governantes europeus, todos eles muito liberais, levantaram-se com vontade de dar um novo golpe e de impor aos cidadãos europeus uma maior subserviência com respeito ao poder económico. Poderiam ter utilizado as armas para impor novamente a sua vontade, mas certamente isto teria sido pouco elegante. Em vez disso, decidiram impor aos europeus a chamada Constituição Europeia, um texto de carácter ainda mais neoliberal e retrógrado. E, respeitando a tradição e os bons costumes, submeteram esta Constituição a referendo nos diferentes países.

Mas, por um motivo qualquer, alguma coisa saiu mal. A França e a Holanda rejeitaram a Constituição em referendo. Foi um pequeno contratempo, mas nada que não se resolvesse facilmente. Bastou mudar o nome à Constituição e ignorar, mais uma vez, a vontade do povo. O texto chamar-se-ia agora Tratado de Lisboa. E todos os golpistas concordaram em que, para evitar mais problemas, era melhor não fazer mais referendos com este novo tratado. Portugal, por exemplo, que até havia modificado a sua Constituição nacional para poder fazer o referendo, renunciou a fazê-lo.

Mas esqueceram-se da Irlanda, cujo povo votou também contra. Novo contratempo. Como já não dava para mudar outra vez o nome do Tratado, os golpistas decidiram repetir uma outra vez o referendo na Irlanda. O povo é soberano, mas, como sabemos, para demonstrar que realmente o é, deve votar aquilo que lhe é ordenado.

Sob uma forte e persistente chantagem, e com a falsa oferta de alguns rebuçados, desta vez os irlandeses votaram aquilo que deviam votar. Até que enfim! E mesmo os checos, com os seus interesseiros jogos políticos, também concordaram. Finalmente Europa poderá ter um texto constitucional que adopta uns princípios que tão bons resultados deram para conduzir a Europa à crise. Nele adopta-se, por exemplo, a consagração do comércio livre, a criação duma economia altamente competitiva e de escala mundial, a liberalização dos serviços, uma constante expansão do consumo, a liberdade de movimentos de capitais, uma democracia de tipo representativo, a subordinação à NATO em matéria de defesa, etc. Sim, é um verdadeiro golpe de estado. Mas com muito requinte democrático…

6 comentários:

José Soares disse...

Gostei muito da intervenção do Dr. Daniel nas últimas eleições.
Gostava de saber como posso ingressar nos Verde.
Peço perdão por não ter muito curriculum na defesa do ambiente, mas nunca é ter para dar o nosso pequeno contributo para salvar o planeta.

José Soares

Ze Luis disse...

Excelente leitura dos factos. Com oporunidade e toda a sensatez.

José Silva disse...

Gostava muito de felicitar o senhor Daniel pela sua grande campanha para as autarquicas.
Gostava de saber como posso aderir ao vosso partido.
obrigado

Ze Luis disse...

Excelente artigo. Vai ser util para a discussãode quarta na Assembleia da República. JLF

DMS disse...

Intervenção sobre o Tratado de Lisboa, proferida no dia 18 de Novembro, na Assembleia da República, pelo deputado José Luís Ferreira:
http://www.osverdes.pt/
(Divulgações - Tratado de Lisboa)

DMS disse...
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