terça-feira, 3 de novembro de 2009

Descanso religioso

Depois do intenso período eleitoral dos últimos meses, a igreja vai poder finalmente ter o seu merecido descanso. Não, não é, certamente, que a igreja se tenha apresentado às eleições. Mas foram muitas as inaugurações oficiais realizadas durante a campanha eleitoral, sempre orientadas a captar o voto dos eleitores mais distraídos: colocação da primeira pedra de uma coisa qualquer, inauguração da primeira fase duma outra coisa qualquer, inauguração da segunda e a terceira fase da mesma coisa dantes… E, claro, nestas inaugurações todas nunca poderia faltar a presença dum padre a aspergir água benta para afugentar os maus espíritos. Agora, passada a frenética época eleitoral, impõe-se para os padres uma época de calma e de repouso.

É certamente curioso ver os padres a lançar água benta na inauguração de qualquer nova construção. Este costume, próprio doutros tempos, é já difícil de presenciar em qualquer país moderno e civilizado. Mas ainda mais curioso é presenciar este espectáculo nas inaugurações oficiais, promovidas pelos governos regional ou municipais, óbvios representantes dum estado português que se define como laico.

Apesar da Constituição portuguesa dizer que “as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado”, o certo é que nos Açores ambas instituições se misturam de uma forma completamente incompreensível. Para além de ser comum a presença da igreja nos actos públicos do estado, é também frequente e visível a participação dos governantes regionais e autárquicos nos actos religiosos.

No mês de Junho, por exemplo, foi possível ouvir um discurso da presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada na inauguração da nova Igreja de Nossa Senhora de Fátima, cuja construção foi promovida pela própria câmara. Não há dúvida de que há muito misticismo no ar dos Açores.

Já no mês de Setembro, foi a vez de ouvir uma breve missa, realizada por um padre autêntico, na inauguração oficial do Expolab, o novo Centro de Ciência construído no concelho da Lagoa. Este novo centro tem como principal objectivo “a divulgação científica no âmbito de temáticas relacionadas com as Ciências Naturais”.


Não deixa de ser estranha a realização duma missa para inaugurar um centro dedicado à ciência. E ainda por cima quando, no mesmo centro, era inaugurada uma exposição sobre a evolução biológica, no âmbito das celebrações do bicentenário de Darwin. A igreja demorou muitos séculos a reconhecer que Galileu não estava enganado. Apenas um século e meio após a publicação das suas ideias, Darwin foi agora benzido, por surpresa, nesta breve cerimónia religiosa realizada na Lagoa. Os Açores passaram assim a ser o primeiro lugar do mundo em que a igreja católica beatificou as teorias do sempre vilipendiado Darwin. Nisto sim, os Açores estão à frente do mundo!

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