sexta-feira, 10 de julho de 2009

Requiem pela Lagoa das Furnas.

Visitar a lagoa das Furnas, na ilha de São Miguel, deixou de poder ser considerado como turismo de natureza. Na actualidade, deve ser considerado apenas como uma espécie de turismo funerário. À crescente podridão das águas, malcheirosas durante o verão, em toda a sua variada gama de tons amarelo-esverdeados, soma-se a crescente e inexorável artificialização do seu ambiente.

A última coisa que um turista espera encontrar nas até agora belas e nostálgicas margens da lagoa é a presença dum grande estaleiro da construção civil. Mas ele lá está. Também não espera encontrar uma grua a ser utilizada na construção dum prédio. Mas ela lá está. Nem um tipo esquisito de bunker, nem novas condutas eléctricas, nem novas canalizações… Mas todas elas também lá estão!


Como poderá interpretar-se a presença de toda esta frenética actividade construtora? Pois bem, na realidade parece tratar-se da construção do novo “Centro de Interpretação da Lagoa das Furnas”, um empreendimento cientifico-turístico de… bastante difícil interpretação! O conjunto das obras parece que vai incluir vários edifícios com áreas habitáveis, dispondo de todos os requisitos de conforto para estadias frequentes e demoradas; vários edifícios de apoio com instalações sanitárias, arrecadações ou áreas técnicas; dois pequenos edifícios de suporte para equipamentos especiais, áreas de trabalho com gabinetes, salas de reuniões, um pequeno auditório e uma cafetaria; e ainda inclui infra-estruturas hidráulicas, eléctricas, telecomunicações, pavimentação de arruamentos e intervenção paisagística… Sim, tudo isto!

Talvez para –supostamente– interpretar, monitorizar ou investigar a lagoa e o seu ambiente natural seja bom ter alguma proximidade com eles. Mas era talvez necessário colocar-se acima deles? É aceitável a construção de tanto edifício e tanta infra-estrutura na lagoa para depois falar –supostamente– sobre a preservação da lagoa e do seu ambiente natural? E tudo isto num lugar tão afastado da estrada, por onde lógicamente chegam todos os turistas? E num lugar até agora medianamente preservado?

Parece existir a promessa de que toda esta megalómana construção vai ficar muito bem integrada na paisagem. Mas, na verdade, não é isto o que se vê agora. E muito mais integrada estaria se não estivesse num lugar tão pouco adequado. Qual será então o resultado final de tudo isto? Será que realmente vai ficar integrada com a paisagem, aquela coisa que, entretanto, ficou por baixo das fundações? Ou será que vai ficar integrada num novo desenvolvimento urbanístico e turístico daquela zona?

Mas também se fala de construir uma via empedrada, e talvez iluminada, à volta de toda a lagoa. Afinal, toda esta nova e agressiva artificialização é necessária para quê? O objectivo é potenciar o turismo de natureza ou potenciar um absurdo turismo urbano? Se se quer potenciar o turismo de natureza, era melhor conservar, num estado intacto ou pouco alterado, os valores naturais da lagoa, evitando sempre a sua artificialização. Era melhor investir em planos mais eficazes para evitar a crescente eutrofização das águas, impedir novas construções junto a lagoa, integrar na paisagem as já existentes (algumas com cores berrantes), fazer um trilho pedonal junto a estrada no lado nascente, sinalizar bem os trilhos já existentes, regular o acesso dos carros às margens da lagoa, proibir a circulação de motas amantes do ruído e da erosão, retirar as aves exóticas (domésticas) introduzidas, acondicionar melhor as áreas de recreio…

Actualmente, ao visitar a lagoa das Furnas, a inevitável sensação que se tem é que se está a construir uma espécie de túmulo artificial ao redor dumas águas já mortas.

1 comentário:

pedro damian disse...

Estou perplexo e não posso deixar de manifestar a minha ignorância relativamente a degradação da Lagoa das Furnas. Tinha e mantenho a esperança de visitar a vossa ilha um dia, no secreto desejo de contemplar a beleza natural da Lagoa seus arredores.Naturalmente julguei que nas margens de uma lagoa existiriam aqui ou acolá uma ou outra casinha de campo em madeira discretamente envolvida pela vegetação...mas edificios de betão?... para fins e estudos científicos?...Perdoai a minha impertinência mas... aquele local não deveria ser um espaço de meditação e contemplação, de lazer e de educação, de diálogos e, sobretudo de transmitir aos mais jovens a preservação da beleza natural? Porque pouco mais nos restará neste nosso planeta senão solidão e espaçoa áridos. Queria tanto conhecer a "lagoa da esmeraldas".....