quinta-feira, 16 de julho de 2009

Atropelar priôlos como forma de fazer desporto.

É já quase uma tradição que está a impor-se na ilha de São Miguel. Trata-se da priolada, uma forma de fazer desporto com grande número de seguidores e apoiantes, entre os que se contam, em destacado lugar, os governos regionais e municipais da ilha.

Este emocionante desporto consiste em passar de carro, a toda velocidade, pela única área em que vive o priôlo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha de São Miguel e que se encontra entre as espécies mais ameaçadas do planeta. O objectivo dos concorrentes não é claro. Supostamente é fazer o percurso o mais rapidamente possível. Mas tudo indica que, na realidade, o objectivo é expulsar durante uns dias os priôlos do seu habitat da Serra da Tronqueira e talvez impedir a sua reprodução. É possível que atropelar um priôlo chegue a dar mais pontos na classificação geral, mas ninguém sabe ao certo.


Neste magnífico desporto existem no menos duas competições anuais. Uma é o SATA Rallye Açores (que este ano decorreu nos dias 7-9 de Maio) e a outra é o Rallye da Ribeira Grande (que decorreu nos dias 11-12 de Julho). Os dois rallyes, como não podia ser de outra forma, têm sempre um percurso que passa pela Serra da Tronqueira e pelo Planalto dos Graminhais, sempre à procura dos tão ameaçados priôlos. “O rally passa, a paisagem fica” é a frase publicitária, certamente curiosa, utilizada pela Associação de Municípios da Ilha de São Miguel. Pois ficar, fica, mas não se sabe em que estado…

A passagem destes rallyes pela Serra da Tronqueira tem evidentemente impacto sobre a reduzida população de priôlos, especialmente durante a época de reprodução. Esta ocorre de meados de Junho ao fim de Agosto, com a aparição dos primeiros juvenis em meados de Julho. Estas datas coincidem, portanto, com a realização duma das provas.

Não há dúvidas de que o priôlo e o seu habitat constituem um património natural açoriano de valor mundial. No entanto, parece que este valor não tem a mínima importância quando se trata de definir os percursos dos rallyes. Para os organizadores e os governantes da ilha ter um rallye ainda mais espectacular é muito mais importante que proteger uma espécie ameaçada. Segundo eles, os priôlos até devem gostar de assistir a este tipo de espectáculos automobilísticos. Pelo menos, os estrangeiros parecem apreciar esta espécie, que constitui uma atracção turística e recebe importantes fundos internacionais para a sua conservação.

Quando será que os açorianos o os seus governantes vão também importar-se com ela? E até quando assistiremos a esta atitude vergonhosa?

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