quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tourada à corda em São Miguel.

No dia 25 de Maio realizou-se, pela segunda vez, uma tourada à corda em São Miguel, nas instalações da Associação Agrícola. Podemos imaginar de que forma a realização desta tourada foi decidida pelos organizadores, no decurso de uma solene reunião:

– Caros colegas, se alguém tem uma ideia para o Dia do Agricultor deste ano gostava que a dissesse agora.
– Podemos talvez organizar um grande concerto de música pimba, como outras vezes.
– Nem pensar nisso. O meu filho, que está a estudar no continente, até gostaria disso. Mas eu já tenho demasiada idade para essas coisas.
– Então, e organizar um recital de poesia?
– O Joãozinho, tu estás a gozar aqui com a gente, não é? Nós somos homens da lavoura, homens a sério. Não podemos andar por ai a recitar poesias, como esses tipos moles. Isso é intelectual a mais para nós.
– Mas talvez possamos fazer um grande baile, com uma orquestra.
– Olha, eu não nasci para dançar. Ainda tropeçava e caía acima de toda a gente.
– Pois então… E se fazemos uma tourada à corda, como na Terceira?
– Claro! Muito bem! Isso é que é boa ideia!
– Amarrar um animal no meio da gente para depois o fustigar, isto sim que revela a sensibilidade da gente da lavoura, aquilo que nos vai na alma.
– E é o que toda a gente espera de nós. Há umas tradições a cumprir. O que pensariam de nós se não nos comportassemos como uns brutamontes?

Foi talvez assim que este ano, no seio da Sociedade Agrícola, se defendeu orgulhosamente a imagem tradicional do homem da lavoura, pois maltratar animais é, sem dúvida, a melhor forma de garantir a imagem do homem rude do campo.

Mas, já agora, gostavamos sugerir outros espectáculos alternativos para os próximos anos: apedrejar publicamente o idiota da aldeia, queimar vivo um cão de fila, ver quem aguenta mais tempo em pé depois de beber mais pipas de cerveja… Tudo actividades bem brutas e geradoras de grande convívio.

Fica claro que os dirigentes da Sociedade Agrícola não têm nenhum respeito pelos animais, mas era bom que pelo menos começassem a ter algum respeito por si mesmos.

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